O cinema feito de ‘partes chatas’

Em um de seus momentos inspirados, Alfred Hitchcock teria dito que o cinema dispensa as partes chatas da vida. O que leva a pensar que, para existir um filme, sempre deve existir ação – ou simplesmente algo acontecendo na tela.

É o que dizem teóricos do universo dos roteiros, entre eles Syd Field: o cinema se baseia em uma teia de acontecimentos a mover personagens incessantemente, do desenrolar da trama ao desfecho da história.

yasujiro ozu

Por isso, filmes que exploram “tempos mortos”, ou apenas amostras da vida cotidiana, poderiam ser chamados de anticinema, segundo os entusiastas do modelo clássico de contar histórias. O questionamento continua válido.

A necessidade de dispensar essas “partes chatas” e embutir sempre movimento – ou ação, ou “acontecimentos”, como se queira definir – liga-se à ideia de puro entretenimento, de prender o público a uma narrativa excitante, feita de reviravoltas.

Tem a ver com o desejo da indústria de fazer o público pregar-se na cadeira, suspirar, encontrar na tela o impossível, o inacreditável, sem dispensar, em muitos casos, a verossimilhança. A ideia de entretenimento no cinema, sobretudo no modelo hollywoodiano, está ligada a esse movimento, à negação da vida comum.

Nos filmes do japonês Yasujiro Ozu (acima) há bons exemplos desses tempos nos quais nada parece ocorrer. Em muitos casos pode ser mera impressão: o diretor sabia como compor suas pequenas situações e colocá-las em relevo. Suas obras são compostas dessa aparente simplicidade, dessa “vida pequena”, ainda assim emocionante.

umberto d

Ozu vem à mente graças à forma como lida com o tempo, com seus famosos planos intermediários (e é importante fazer justiça a ele nesse ponto), imagens de ambientes que não estão ligados necessariamente à história, entre uma situação e outra.

Com a estética realista predominante no cinema moderno, sobretudo com o neorrealismo italiano, viu-se que os “tempos mortos” poderiam dar vez a composições valiosas: momentos que forçavam o espectador a enxergar o real, a sentir o tempo.

Em Umberto D., de Vittorio De Sica, há uma sequência que ilustra a questão: é o momento em que uma dona de casa (acima) ocupa-se de seus afazeres diários, em um mesmo espaço, e o espectador acompanha essas ações que nada influem no enredo.

Roteirista do filme e uma das vozes centrais do neorrealismo, Cesare Zavattini falava na necessidade de “permanecer” na cena, pois ela pode conter uma grande quantidade de “ecos e reverberações”. O que antes podia ser maçante incorporava-se à estrutura.

vocês os vivos

É de Zavattini, também, uma declaração interessante sobre a diferença do roteiro de um filme feito segundo a estrutura hollywoodiana e o que passaria a ser feito na Itália, nos anos que sucedem a Segunda Guerra Mundial: “(…) se alguém pensasse na ideia de um filme sobre, digamos, uma greve, inventaria imediatamente um enredo. E a greve propriamente dita se tornaria apenas o pano de fundo do filme. Hoje (…) descreveríamos a própria greve”. Como se vê, escapa-se ao material do qual são feitos os sonhos.

O cinema moderno, contudo, expõe desafios. Há filmes que exploram os chamados “tempos mortos”, as “partes chatas”, sem deixar de lado a magia que o cinema pode incluir, sem a ficção extraordinária, às vezes com mergulhos no sonho.

Os filmes do sueco Roy Andersson servem de exemplo. Obras como Vocês, os Vivos (acima) dão a ideia de que é possível aderir a situações cotidianas, miúdas, sem que se renuncie à assumida ficção, ou simplesmente ao material cinematográfico. Prova de que bons filmes não permitem o tempo perdido – nos quais o nada é tudo.

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