O papel do ator

Dois mestres: Alfred Hitchcock e Jean Renoir. Contemporâneos, fizeram cinemas distintos e, por motivos diferentes, foram trabalhar nos Estados Unidos nos anos 40. Entre suas diferenças está o tratamento ao ator: para Hitchcock, como se comprova em seus filmes, o ator está sempre a serviço da técnica; em Renoir vê-se o oposto.

As citações abaixo dão ideia de como encaravam essa arte, a de interpretar, e como a incorporavam ao cinema. Falam de atores em filmes que quase sempre não figuram entre seus mais famosos: Um Casal do Barulho (foto), de Hitchcock, e Toni, de Renoir.

Quando cheguei ao estúdio no primeiro dia de filmagem, Carole Lombard tinha mandado construir uma jaula com três compartimentos, e dentro havia três vacas vivas, cada uma exibindo, em volta do pescoço, uma grande rodela branca, cada uma com um nome: Carole Lombard, Robert Montgomery e Gene Raymond [atitude em resposta à polêmica frase de Hitchcock: “Todos os atores são gado”].

Fiz o filme como cortesia para com Carole Lombard. Ela me pediu para realizá-lo. O roteiro já estava escrito, e apenas entrei para filmar. Ela tinha ouvido falar da minha observação de que “atores deveriam ser tratados como gado”, de modo que, quando cheguei ao set, deparei-me com um pequeno curral com algum gado dentro. Foi ela quem arranjou aquilo.

Alfred Hitchcock, cineasta, em duas entrevistas que contêm as citações. A primeira foi dada a François Truffaut, que se transformou em um livro referencial, Hitchcock/Truffaut (Companhia das Letras; pg. 140). A segunda foi dada ao cineasta e crítico Peter Bogdanovich, em conversas feitas entre janeiro de 1961 e maio de 1972, e está publicada no livro Afinal, Quem Faz os Filmes (Companhia das Letras; pg. 591).

Eu acho que não é o ator que tem de ficar à disposição da técnica, mas a técnica que deve se dobrar ao jogo do ator. Em troca dessa liberdade material, esse método exige do intérprete uma fidelidade absoluta ao espírito do roteiro, e rigorosa disciplina moral.

Jean Renoir, cineasta, em um artigo escrito em março de 1935, na ocasião do lançamento de Toni e reproduzido no livro O Passado Vivo (Nova Fronteira; pg. 25).

um casal do barulho

Veja também:
Toni, de Jean Renoir
Pelos olhos de Hitchcock

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