Em Nome da Lei, de Sergio Rezende

O cinema sempre reflete seu tempo. No caso de Em Nome da Lei, volta-se à atual onda de credibilidade que a Polícia Federal e a Justiça ganharam no Brasil, sobretudo na figura do juiz Sérgio Moro e sua Operação Lava Jato.

Em vez de políticos, empreiteiros e lobistas, os criminosos são traficantes e homens poderosos da fronteira, sem esquecer os próprios policiais. As faces são as esperadas: o juiz idealista tem algo ingênuo, é amoroso e rejeita o comodismo.

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Quer mudar o meio em que está, o meio em que os poderosos chefes do crime ainda mandam nas autoridades, ao passo que processos mofam nos arquivos da Justiça.

À base da imagem do juiz heroico, Vitor (Mateus Solano) segue a cartilha do bom moço que se aproxima do público, que toca o coração antes da alma: precisa se mostrar fraco para revelar sua força, o que torna seu desejo de mudança até bonito de ver.

A questão não é desconfiar das instituições ou acreditar em exagero. O que compromete Em Nome da Lei, de Sergio Rezende, é o jogo de mocinho e bandido que o filme prefere, a certa altura, e na contramão do jogo que domina o mundo do poder.

Por isso, o filme engana, soa falso: ainda que pareça representar o Brasil da atualidade, com juízes e promotores que fazem valer a Justiça, não passa de maquiagem, de gente pura e bem intencionada contra o pior dos homens, aquele que às vezes apela à língua estrangeira, que transita entre mansões e bares sujos, vivido por Chico Díaz.

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O herói de Solano não deixa ver qualquer sinal dessa passagem por mundos diferentes: mesmo quando em um ambiente suspeito, ao qual não pertence, ele deixa evidente que não pertence a esse meio. Sua falsidade torna-o um homem de gabinete.

Ao seu lado está uma bela e honesta procuradora (Paolla Oliveira), além de policiais que se dividem entre honestos e corruptos. O melhor do filme é Díaz, como o chefão Gomez, à vontade para ser um vilão de filme de gênero, sem exageros.

Nesse sentido, Em Nome da Lei – no herói ou no vilão – deixa ver o que representam essas figuras ainda cedo, apenas em suas imagens. Não há qualquer contradição: todos já estão talhados, nos menores gestos, na forma como retribuem um ato ou agradecem.

Nesse Brasil que parece verdadeiro, abundam, ao centro, figuras quase sempre de mentira, que habitam o imaginário popular. Por muito tempo, o vilão tinha mais motivos para conviver nele, com palavras de ordem, jeito implacável.

Em tempo de juízes heroicos, capazes de tudo para fazer valer a “lei”, volta o garoto de terno e gravata, de olhar febril, amante do trabalho, da lei ainda mais, e, se necessário, disposto a abusar um pouco. É fácil reconhecer o culpado nesse universo fictício.

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Mundo Cão, de Marcos Jorge

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