Cidade das Sombras, de Alex Proyas

Na cidade sem sol, perdida no espaço, todos sabem onde ficam alguns locais e poucos tentam chegar até eles. Pensam, em alguns momentos, na possibilidade de alcançar o outro lado, transpor os limites da cidade, e então escapar da alienação.

O protagonista de Cidade das Sombras sabe sobre muitas coisas, tem suas memórias perdidas e questiona, pouco a pouco, por que está preso à escuridão: ele deseja escapar da cidade para descobrir quem realmente é, ou para descobrir o nada.

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Nesse estranho filme, o herói nasce no mesmo instante em que a história começa: tudo o que vem antes dele, em memórias, nada mais é do que invenção.

A obra mostra uma cidade criada por alienígenas, os “estranhos”. Esses seres de pele branca e cobertos por couro preto estão em extinção e desejam descobrir o que está por trás da alma humana: a maneira de encontrar um caminho para renascer.

Os inimigos reúnem algumas pessoas vindas da Terra nessa cidade em eterna mutação, sempre à noite. Os humanos são peças. A cada nova parada no relógio, à meia-noite, pessoas mudam de local: homens pobres tornam-se ricos, porteiros de hotel passam a desempenhar outra função qualquer. E a “vida” continua.

Por motivos nem sempre fáceis de explicar, John Murdoch (Rufus Sewell), o herói, parou de dormir. Ele rejeita a alienação ao passo que precisa descobrir seu próprio nada: antes dele, e diferente do que as memórias plantadas indicam, resta apenas o espaço.

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O filme de Alex Proyas mostra como são as personagens e o relevo que parecem ter. Na tela, ou nos livros, ou em qualquer outro formato, elas são nada mais que uma invenção de seus criadores, ou seja, de seus “estranhos”.

As personagens são como Murdoch: acabadas na forma como aparecem, vazias na maneira como são de verdade. Ora ou outra ganham vida própria, rebelam-se, desejam parar de dormir – à contramão do desejo dos “estranhos”. Da escuridão das personagens interessantes, de um universo atraente, seguem à luz da facilidade.

O final feliz, em frente ao oceano, é por isso quadrado – aqui irônico. Ao adquirir o poder dos “estranhos”, Murdoch é a personagem que se rebela, que não aceita dormir, que avisa as outras personagens – a mulher amada e bela (Jennifer Connelly), o detetive desconfiado (William Hurt) – que tudo não passa de encenação.

Ao mesmo tempo, Murdoch é a típica personagem de filme noir: o homem que perdeu a memória, perseguido por bandidos e pelo policial que pode ajudá-lo, que ama – ou que foi obrigado a amar – a bela cantora de casas noturnas, sempre à noite.

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Quem se rebela, vê-se, é o anti-herói, o errado, que pensa ter um belo passado, à beira-mar, mas nada tem. Rebela-se contra todos os outros que dormem, as personagens de outro tempo, sem seu relevo e indefinição.

Os cenários fazem pensar no expressionismo alemão: os prédios contorcem-se quando nascem, brotando do nada, no momento em que os relógios param. Esse mundo achatado, como uma grande nave alienígena, revela imperfeições – e, por isso, suas verdades – quando todos estão dormindo. Murdoch será convidado a vê-las.

Os vilões foram inspirados no Nosferatu de Murnau, e os edifícios remetem ao futurismo de Metrópolis, de Lang. Essa mistura fala do cinema, meio em que as memórias são tão falsas quanto as personagens e seus cenários. Ainda assim, é pela arte que se mergulha no humano, nas indefinições e formas inexplicáveis, para escapar do plano simples, da cidade ensolarada, da bela mulher que espera à beira-mar.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Busca Frenética, de Roman Polanski

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