Toni, de Jean Renoir

O bom coração de Toni não se revela com facilidade. Ao longo do pequeno grande filme de Jean Renoir, a personagem não deixa ver seus sentimentos. Mesmo quando diz amar uma mulher, ainda resta um homem um pouco bruto, impulsivo, fechado.

A estrutura do filme, tão seca, contribui para a impressão: Toni, interpretado por Charles Blavette, é produto do universo realista. Para alguns, a obra de Renoir tem o mérito de antecipar a tendência moderna da década seguinte, o neorrealismo.

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O protagonista não é bem um herói. Curvas de imperfeição são evidentes. Como outras personagens de Renoir, esse homem pode mudar de vida em questão de minutos, como se verá no encerramento, e sonha ao olhar para as estrelas, ao falar sobre outro país.

No sul da França, imigrantes descem de trens em busca de trabalho. Cantam pelas estradas empoeiradas, aos bandos, com crianças no colo. Alguns, como o protagonista, encontram trabalho nas pedreiras. A ponte e a ferrovia indicam certo progresso.

Toni une-se à francesa Marie (Jenny Hélia), mas ama a espanhola Josefa (Celia Montalván). É o problema central da história, depois unido a novos detalhes: o herói permanece em uma união infeliz, aceita fazer concessões em nome do amor, até mesmo assumir um crime que não é seu; a mulher, sua amada, casa-se com o homem errado.

A distância tomada por Renoir ajuda no clima naturalista, enquanto esses seres perambulam de um lado para o outro. Todo esse universo não oferece nada além de desilusão, como se viu em outro grande filme do cineasta, Boudu Salvo das Águas.

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Em uma sequência-chave, Toni fala com um amigo sobre o casamento de Josefa. Pouco depois, sentado sob uma árvore com outros homens, vê a pedreira desabar, com pedaços e muita poeira. A representação é clara: as esperanças da personagem são demolidas.

Quanto a Marie, esta resolve se suicidar. Enquanto Toni e outro homem procuram por ela, pescadores trazem seu corpo à beira do lago: para a surpresa de todos, ela não está morta. Depois do incidente, resolve se distanciar do herói, que dorme ao relento.

Quase não há tempo para se apegar às personagens nos filmes de Renoir. O cineasta faria, mais tarde, A Besta Humana, a partir de Émile Zola, no qual o também bruto Jean Gabin vê-se à beira do trilho do trem, próximo à locomotiva – o sinal do progresso – e termina envolvido em um caso de assassinato, ao lado de uma mulher.

Chama a atenção, em Toni, a forma como o protagonista é manipulado, ou como se deixa manipular: os brutos de Renoir vivem esse problema, vítimas do sentimento. Há por ali alguns criminosos, gente pequena, pessoas felizes – à primeira vista não tão diferentes de Toni. Reais, eles cedem à câmera pouco mais que o necessário.

Nota: ★★★★★

Veja também:
Renoir, de Gilles Bourdos

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