Cloverfield: Monstro, de Matt Reeves

Desde seu surgimento, o cinema esforçou-se para não deixar o público “ver” sua forma: na chamada transparência, a ideia é levar o espectador ao centro de uma estrutura que o permite embarcar na história, rir ou chorar, mesmo aceitando a ficção.

Em Cloverfield: Monstro, a proposta parece ser a contrária: cada corte cai como bomba, uma interrupção abrupta que revela o meio, o “criador”, a maneira como o aparente registro aproxima uma história de contornos fantásticos à esfera real.

cloverfield1

Em outras palavras, um filme de monstro casado à gravação amadora, à câmera na mão, como se o condutor da gravação fosse também a personagem. O público não vê tudo porque as personagens não veem tanto, ou porque apenas lutam para sobreviver.

Começa em uma festa entre amigos, naqueles apartamentos de poucas paredes de Manhattan, com pessoas sofisticadas que não resistem a brindes noturnos.

Tem uma história de rompimento, do rapaz surpreendido com uma festa surpresa (ele vai se mudar para o Japão) e que não aceita ver a ex-namorada na companhia de outro jovem. O troco está dado: a presença dela acaba estragando a noite dele.

O que vem à tona se deve a essa gravação intrusa: o condutor da câmera é outro jovem, pouco presente mas onipresente. Quer dizer, ele é, ao que tudo indica, o condutor ideal: alguém que descobre as possibilidades da câmera, naquela noite, enquanto todos parecem dispostos a gravar despedidas ao dono do apartamento.

cloverfield2

O que parece realismo traz questionamentos: ao optar pela tremedeira, pela aparência de gravação amadora, Cloverfield estaria levando o espectador a acreditar ainda mais nessa ficção? Ou seria apenas um exercício a provar que filmes de monstros e com toques fantásticos dispensam retoques e podem ser “reais”?

Na verdade, a intenção do filme de Matt Reeves é velha conhecida: a ideia é apenas parecer real, parecer truncado e amador, e assim tentar fazer o espectador mergulhar na emoção: quem “faz” esse filme, afinal, são pessoas como outras quaisquer.

São jovens em uma noite de festa, depois em uma noite de desespero. Jovens tragados a uma situação extrema na qual nada podem fazer senão tentar sobreviver – isso, claro, não fosse o instinto tipicamente hollywoodiano de não deixar os outros para trás.

E por trás do aspecto supostamente real escondem-se os golpes do roteiro: a certa altura, o rapaz perde-se da amada e precisa voltar a ela; os amigos aceitarão segui-lo e, não importa o que ocorra, mesmo de mão em mão, a câmera nunca será desligada.

cloverfield3

Nesse sentido, resta a chamada transparência: Cloverfield, ainda que não pareça, é o produto hollywoodiano feito de estereótipos, com as mesmas velhas formas. O recurso realista é usado como maquiagem, não como revelação.

Ao fazer sentir os cortes, ou ao mostrar a gravação de dias felizes do casal que surge na tela, é como se dissesse ao espectador que não se pode fazer nada a não ser aceitar o registro. Por esse feito, sobras desse desastre, espera-se algo minimamente assustador.

Entre monstros grandes e outros menores, bombas e prédios aos cacos, resta apenas a câmera, objeto aparentemente indestrutível. Vêm a opção final, a explosão, a tela escura e a lembrança de que as imagens sempre sobrevivem.

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Batman vs Superman: A Origem da Justiça, de Zack Snyder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s