Mundo Cão, de Marcos Jorge

A adoração aos cães leva o vilão Nenê (Lázaro Ramos) para dentro da jaula. Ele será visto por ali mais de uma vez em Mundo Cão, a se comunicar com seus bichos, a exibir suas garras como se animal como aquele – tão mortal – não houvesse.

Essa relação, para revelar o monstro que habita em Nenê, é óbvia. O filme de Marcos Jorge torna-se mais interessante quando a selvageria aparece – e não necessariamente brota sem explicação – nas pessoas do outro lado, as supostas vítimas.

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Após dar início à trama, o cão continuará por ali, sempre aos cantos, para revelar o melhor e o pior dos humanos: os assassinos também mostram amor aos bichos, e chega a ser comovente o momento em que Nenê encontra seu cão morto, após este ser resgatado pelo setor de Zoonoses e, depois de três dias, sacrificado.

O espectador duvidará tanto de algum gesto bondoso de Nenê quanto de outro maldoso de qualquer personagem que compõe a família de Santana (Babu Santana), um dos funcionários da prefeitura da grande cidade que capturou o cão do algoz.

A morte do animal é o ponto de partida para todos os problemas: no meio em que vive Nenê, o troco tem de ser dado à altura; no de Santana, aparente pai pacato de classe média baixa, não se pensa em troco, talvez, além da promessa da justiça divina.

Mas o mundo físico em que se situam essas relações selvagens dá vez a novos contornos: a certa altura, Santana, sua mulher (Adriana Esteves) e a filha mais velha (Thainá Duarte) estão à procura do filho mais novo, sequestrado por Nenê.

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Depois de manter o garoto em uma jaula, como um animal, e depois de levá-lo a outro cercado, para tocar um cão nervoso, o mesmo menino será levado a um jogo de futebol. Para Nenê, levar o filho do outro, seu inimigo, a tal ambiente, equivale a adestrar o animal que sabe pouco ou quase nada sobre a vida. Está aberto às descobertas.

Nessa estranha contradição entre controlar e se deixar levar pela selvageria está Mundo Cão, que pode ter bebido na fonte de Círculo do Medo, clássico de J. Lee Thompson. Mais importante que a ação de Nenê é como os outros reagirão à mesma.

Do outro lado, Santana sabe que a vingança depende apenas dele e de mais ninguém: não dá para confiar na polícia e suas regras, suas senhas para atendimento, tampouco quando descobre que Nenê tem alguns policiais sob sua batuta.

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Nesse mundo cão, Santana tem de transformar seu pequeno estúdio em que tocava bateria, forrado com caixas de ovo para abafar o som, em cativeiro, ou mesmo em um canil que servirá de abrigo para o animal Nenê, alimentado com água e ração.

A família evangélica de Santana passa da confiança na justiça divina ao mesmo mundo cão que se impõe: como explicar a morte da mãe, ao ser atropelada abruptamente por um ônibus quando caminhava em direção à filha, do outro lado da rua?

Para Santana, não há outra explicação: a culpa é de Nenê. A filha, interpretada por Thainá, aos poucos ganha peso na história. Surda-muda, ela será a representação da vítima sem voz, ao mesmo tempo da falsa inocência. Diferente do cão, alguns demoram a mostrar as garras. Mais tarde, ainda conseguem dormir com tranquilidade.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Sicario: Terra de Ninguém, de Denis Villeneuve

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