A Bruxa, de Robert Eggers

O terror não depende de sua “explosão”, do susto. Ao não apelar ao barulho, o que é cada vez mais raro se tratando do gênero, A Bruxa deixa ver seu principal acerto. A medida faz do filme de Robert Eggers um evento fora da curva.

Ao invés do susto fácil, prefere o corte seco, em seguida o silêncio. Deixa certo vácuo, como se esperasse do espectador um mínimo de pensamento, de pausa, com um labirinto povoado de mais perguntas, menos respostas.

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Eis outro acerto, o maior: um filme que pede o mínimo da paciência, ainda que não seja desprovido de ação. Em tantas obras convencionais do gênero terror, o espectador já está pronto para pensar no que pode vir à frente, no que o roteirista e seu diretor prepararam para subverter sua expectativa. A Bruxa prefere o mistério.

Por isso, não estranha se alguém o achar “parado”, ou simplesmente se sentir trapaceado pelo corte abrupto. No convencional, o susto vem quase sempre depois do corte: é o momento do impacto, para fazer o público gritar, fechar os olhos.

O filme de Eggers pede o oposto: os olhos deverão estar bem abertos, pois cada pequeno detalhe – cada mancha na floresta escura, na paisagem não alcançada – precisa ser vista com cuidado. Após o corte vem a escuridão ou a calmaria.

Ainda assim, não se desloca do gênero, algo como um “terror de arte” – mesmo que o termo pareça abominável. O visual rigoroso expõe o essencial, aposta na beleza, no lado sombrio do ambiente, na estranheza e ambiguidade das personagens.

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Passa-se em um local afastado, quando uma família, no século 17, na Nova Inglaterra, é expulsa de uma colônia. Ao que parece, o pai (Ralph Ineson) teve desavenças religiosas. A questão espiritual passa por todo o filme, com suas figuras culpadas.

A culpa vem cedo, com o nascimento, como indica o mesmo pai e um de seus filhos, o garoto Caleb (Harvey Scrimshaw). A terra em que vivem – à beira da floresta escura, sem sol – é implacável: o alimento não vem, o milho está seco, sonha-se com maças.

Os problemas têm início com o desaparecimento do filho mais novo da família, um bebê. Desaparece quando está aos cuidados de sua irmã mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), adolescente que, sem querer, deixa Caleb ver a curva de seu seio.

Em meio a tantas proibições e falta de respostas, tudo pode parecer ao mesmo tempo demoníaco e delirante: ao que parece, existem bruxas, demônios, animais falantes, ainda que tudo venha acompanhado da culpa e da necessidade de culpar o outro.

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Nesse universo tomado pelo bem e pelo mal, seus seres curiosamente não deixam ver coisa ou outra com facilidade. Reina a confusão com humanos, não com espíritos. E se por ali alguém se torna uma bruxa, talvez seja para salientar a ideia de que não resta nada a não ser aceitar o mal, lançar-se à floresta de segredos e forças ocultas.

Há imagens fortes, algumas rápidas. O espectador deseja saber mais, ver mais. É ao mesmo tempo difícil ficar trancado no escuro com as personagens e torcer para ver o que não se quer ver. Essa difusão de reações estranhas leva à grandeza da obra.

Thomasin, portanto, é candidata fácil ao papel de bruxa. Todos os atos circundam a moça, entre desaparecimentos, pequenas histórias e brincadeiras, entendimentos distorcidos sobre qualquer coisa. Ao mesmo tempo mulher e adolescente.

O diretor aposta não no desenrolar de uma história à espera do desfecho, mas no acúmulo de situações que ajuda a embaçar o todo. Alguém poderá alegar que as bruxas estão por ali, tal como o Diabo e o reino fantástico. Outros terminam presos à dúvida, às possíveis representações que ocupam esse belo filme.

(The VVitch: A New-England Folktale, Robert Eggers, 2015)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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