Violento e Profano, de Gary Oldman

Difícil acreditar na sensibilidade de algumas personagens de Violento e Profano. Duas delas falam sobre a difícil relação com o pai, no passado, e que pode ter desencadeado a violência e a degradação vistas mais tarde. É uma possibilidade.

Jogar sobre esses relatos todos os problemas posteriores é também um risco: sabe-se muito pouco sobre os seres em cena, ainda mais quando se percebe a distância adotada pelo diretor Gary Oldman, ator famoso, aqui em seu primeiro trabalho na direção.

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O universo costurado por Oldman é feito de batidas, de sofrimento, de drogas e pessoas machucadas. Gente boçal, simples, de olhares perdidos entre sombras, sob os efeitos do frio. A certa altura alguém reclama do vento, enquanto o jovem e viciado Bill descobre o apartamento destruído da irmã, após o excesso de fúria do cunhado.

Bill é um interessante ponto para se desenvolver a trama – ainda que esta seja pouco palpável. Oldman prefere o que talvez não se encaixe, o drama de pessoas que talvez se amem mais do que aparentam, e que não têm coragem de dizer o quanto.

Canalizam a existência com fúria. Correm, escapam dos outros, deixam-se sofrer com a agressão dos parentes. Curiosamente serão vistas juntas mais tarde, mesmo após tantas brigas, agressões e outras situações estranhas, irracionais para dizer o mínimo.

Fica-se com Bill (Charlie Creed-Miles), outro entre tantos errantes: o jovem viciado que nada faz senão se locomover entre pares, menino que rouba algumas drogas do furioso cunhado, Raymond (Ray Winstone), apanha e nunca aprende.

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Situação de viciados já vista em outros filmes, nesse estranho mundo à parte de alienação e revolta, de crimes e destruição, com as pontas dos dedos cobertas pela sujeira, com o rosto sobre o alumínio, em busca da fumaça do entorpecente.

Não se sabe o que esperar desses movimentos. Nem de Bill nem de Raymond. Todos se cruzam nos pequenos apartamentos da periferia inglesa, ao mesmo tempo em que as mulheres – mães e esposas – tentam ignorar o problema.

Em uma sequência chocante, Bill usa drogas próximo à mãe, que o assiste dentro do carro; em outra, ainda pior, Raymond espanca a mulher, Val (Kathy Burke), que está grávida e depois perde o filho. Isso não impede que fiquem juntos outra vez.

É como se Oldman – ao adotar a distância, em clima realista e pouca profundida ao explorar os cenários – obrigasse o espectador a encarar, nessa viagem aos trancos, uma única conclusão: no fim das contas, o que resta a esses seres é o afeto.

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Se por um lado se comunicam com seu oposto, a fúria, eles rendem-se à bondade quando estão na pior e se enxergam no labirinto. Ao não envolver o espectador a ponto de aprender a gostar das personagens de Violento e Profano, Oldman joga fora também a possibilidade de odiá-las por completo, ao fim, quando aceitam perdoar.

A grandeza do filme está na segurança do diretor, que não aceita concessões. Busca o realismo urbano, a tragédia familiar. Ainda há espaço para a palavra perdida, para a graça que não faz rir, e para qualquer coisa que possa parecer pouco mais do que nada e que aqui faz sentido.

A inclinação ao afeto não é um problema. Parece um suspiro, algo que ainda faz crer, mesmo que pouco, na continuidade. Não por acaso, o encerramento é como a abertura: essas personagens seguem em frente, unidas como sempre foram.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
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