Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

Na Hollywood de Trumbo – Lista Negra, existem figuras exóticas, estranhas, como Hedda Hopper e John Wayne. A direção de Jay Roach salienta o que há de pior nesses seres: próximos ou não dos verdadeiros, ambos deixam claro quem são.

Estão do lado oposto da batalha, o lado errado, como inimigos de Dalton Trumbo, o roteirista comunista. Estão a serviço do extremismo, como o inimigo fácil, pronto para ser odiado. Nesse sentido, logo se vê a cilada do filme.

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Para escapar dela talvez valha a pena recorrer a outro filme sobre o macarthismo, que trata o drama de forma adulta e lega ao inimigo a imagem real, de antigas gravações da época. Fala-se aqui de Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney.

O filme de Roach prefere o risco de recriar esses inimigos, seguidores de Joseph McCarthy. Trumbo, sabe-se, tornou-se um dos Dez de Hollywood, perdeu o contrato com seu estúdio, foi preso e depois teve de escrever roteiros sob pseudônimos.

Ao contrário dos outros, Trumbo é cínico e um pouco sábio, diz o oposto do que se espera para surpreender – ou apenas para parecer dúbio. Ainda que a interpretação de Bryan Cranston impressione, a direção de Roach não permite arroubos.

De inimigos manjados e heróis ainda mais, o filme leva ao clima da época, entre os anos 40 e 50, quando os Estados Unidos e a União Soviética travam uma guerra ideológica. O cinema logo se torna um problema, ou mesmo uma solução: é o espaço para se projetar a imagem do país, a ideologia a ser levada ao público.

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O grande veículo de massa, como mostra o filme, não pôde correr o risco de estar sob a influência de textos de autores como Trumbo, ainda que insistissem em heroísmo. Como se sabe, Trumbo lutou na Segunda Guerra, ao contrário de Wayne.

Aos supostos patriotas, o risco aproximava-se de um vírus mortal, de uma substância alienígena típica de filmes B. O cinema reserva-se ao cinema. Por isso, ironicamente, o protagonista usará um argumento que se aproxima do cinema para justificar o erro dos outros: após anos apontando o risco dos comunistas, nada aconteceu. Foi instalado apenas um clima, um estado contínuo de ficção e histórias irreais.

Muitos punidos para nada, e por nada. A vida americana seguiu como sempre foi, ou quase. A pior parte deve-se aos amigos de McCarthy: para darem vez à caça, chegaram até a rasgar a Constituição Americana. No filme, a vilania de Helen Mirren, como Hopper, ou de David James Elliott, como Wayne, revolta e constrange.

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Não estranha que termine com a vitória do protagonista. Após algumas batalhas, vê-se a amarga volta por cima, mas sem a forma “redonda” das velhas vitórias dos filmes clássicos americanos, com patriotas prontos para abater inimigos.

Em uma das melhores cenas, Trumbo observa a reação de alguns presidiários que assistem a um filme de John Wayne. Se na vida real ele não esteve no campo de batalha, a Hollywood da época encarregou-se de resolver o problema.

Essa terra de ficção cria suas lendas e varre para longe o que não lhe interessa. Por algum tempo, o trabalho de Trumbo só era possível se escondido, problema real quando se pensa nos créditos de um filme e nos produtores covardes.

Nota: ★★★☆☆

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