A hora e a vez de Leonardo DiCaprio

A imagem de Jack Dawson, o pobretão que embarca no Titanic após vencer um jogo de baralho, levou Leonardo DiCaprio à fama mundial. Nela, o jovem tem a franja lançada aos olhos, o sorriso adolescente, apaixonado e malicioso.

Seria a imagem a persegui-lo: o eterno rosto bonito, o galã inconformado com a ausência entre os indicados ao Oscar de 1998. Com o tempo a imagem mudou: DiCaprio atingiu o amadurecimento, provou ser mais que beldade.

titanic

Os filmes realizados depois de Titanic (acima) não fizeram muito por ele, ainda que tentasse. O Homem da Máscara de Ferro é esquecível, e nele o ator é um (duplo) luxo à parte. A Praia tenta dizer algo, a todo esforço, e quase chega lá.

A parceria com Martin Scorsese começa em Gangues de Nova York. No início da carreira, o ator havia trabalhado com o favorito do diretor ítalo-americano, Robert De Niro, em O Despertar de um Homem. Do encontro nasce uma grande inspiração.

Sob o comando de Scorsese, em Gangues, sua personagem não convence: como ocorre a alguns atores da era clássica, DiCaprio não cai bem em qualquer figura de época. O ator passava da beleza da franja aos olhos, do rosto de galã, a algo bruto, com o cabelo seboso e o cavanhaque em destaque. Nem sempre é fácil esconder a beleza.

E não era sujo o suficiente para figurar ao lado do carniceiro de Daniel Day-Lewis, que rouba todas as cenas em que aparece. Apequena o outro com facilidade.

DiCaprio precisava de uma personagem forte, protagonista, de novo com Scorsese. A parceria estende-se: logo surge O Aviador (abaixo), de 2004, no qual a ousadia vale a pena: na pele de um magnata sob os efeitos do transtorno obsessivo compulsivo, louco por estrelas de Hollywood e aviões, ele consegue uma de suas melhores performances.

o aviador

O ator vive Howard Hughes. Em algumas sequências, o magnata está nu, sozinho, vendo imagens na grande tela, distante do mundo. Scorsese compõe momentos propositalmente irritantes, e com eles DiCaprio lambuza-se de possibilidades.

Sob Scorsese, como se veria depois em O Lobo de Wall Street, o ator parece não temer o exagero. E o diretor tampouco estava interessado no convencional, ainda que Os Infiltrados, com sua carga dramática e ação esperadas, não chegue a ser grande.

Nesse remake, o ator de novo é difícil de definir, na zona entre o bandido e o policial. Scorsese leva ao absurdo, à tragédia final em que ninguém (ou quase) merece sair ileso e pela porta da frente. Depois, em O Lobo, tem-se o oposto: tudo dá errado o tempo todo, em toneladas de exagero – com mulheres belas, drogas, dinheiro em excesso, prédios, casas nababescas e ainda mais dinheiro –, para tudo dar certo.

Pois DiCaprio resgata seu jeito moleque no corpo do homem adulto, à vontade, como o desleixado e brincalhão de Prenda-me Se For Capaz, de Spielberg, dono do olhar vibrante visto antes no lunático e magnata Hugues, outra história de excessos.

o lobo de wall street

Pouco interessantes são as figuras feitas à medida de qualquer astro hollywoodiano, em filmes como Diamante de Sangue e A Origem. Melhor continuar com Jordan Belfort (acima), amarrado a uma cadeira de avião após uma entre tantas viagens de droga, ou a debochar de um agente do FBI com suas lagostas e o brilhante iate à beira-mar.

Ninguém segura Belfort: ao aterrissar no berço das possibilidades e do enriquecimento, Wall Street, seus olhos brilham. Nasceu para aquele lugar. DiCaprio conduz aos poucos a uma balada, faz o que quer, e Scorsese carrega tudo com maestria.

Nem todos os atores ganham um Oscar ao abusar do despojamento, como um demônio engraçado. Albert Finney perdeu ao ser indicado por As Aventuras de Tom Jones; Kevin Spacey venceu por sua composição em Beleza Americana.

Às vezes é necessário sangrar, levar a estágios impensáveis de sofrimento. Chega-se assim a Hugh Glass (abaixo), o DiCaprio feito para ganhar prêmios, sujo, cortado e com os cabelos e sobrancelhas cobertos pela neve, como o Yuri Jivago de David Lean.

o regresso

Sua história passa por viagens internas e externas, pela morte do filho, pela luta com um grande urso, pelo sono no interior de um cavalo (para não morrer de frio) e pela vingança. O Regresso, de Alejandro González Iñárritu, convoca o espírito.

Por isso, mais de uma vez DiCaprio mergulha em seu interior, nessa religiosidade que humaniza, que às vezes cansa: ele encontra-se com a mulher e com seu lado mais agradável em outro universo, e o espectador sabe o que isso significa.

O ator dispensa a beleza: não é mais o jovem de franja lançada aos olhos ou o misterioso homem do casarão visto pelo narrador, o misterioso que se coloca a brindar a todos em suas festas disputadas, o Jay Gatsby sem nada a oferecer.

Em uma indústria em que prêmios contam tanto, é a vez de DiCaprio agarrar seu Oscar. Ninguém tinha dúvidas de sua capacidade. Glass, a personagem da vez, personifica o difícil caminho para se provar algo, feito de sangue e determinação.

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