O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson

Aos 5 anos, Jack não sabe ao certo como as pessoas cabem no mundo. Tampouco sabe se há algo – e qual o tamanho – fora das paredes entre as quais sempre viveu. Ele foi criado com a mãe em um pequeno quarto, trancado por um criminoso.

Mesmo com a importância da mãe, em O Quarto de Jack pesa mais a visão do garoto. A principal diferença entre eles é a capacidade imaginar: a mãe sabe como é o mundo do lado de fora, o menino conhece apenas seu quarto.

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Por isso, natural que o filme de Lenny Abrahamson tenha tal título: tudo o que importa ao menino, antes de sua fuga, está no pequeno quarto – ou tudo que o leva a transcender aquele pequeno espaço, tomado pela imaginação sem limites.

E relatar a fuga não é adiantar informações importantes sobre o filme. O que vem depois dela levará o menino, ainda, àquele mesmo quarto com pouca iluminação, no qual ele deitava no chão para observar a claraboia, o azul do céu que o obrigava a sonhar.

Mais importante que o drama do cárcere é o que esse menino faz, ainda antes de escapar do quarto, para viver fora daquelas paredes: o que ele constrói com a imaginação faz pensar nos seres humanos, na capacidade de criar mundos alternativos, histórias, de conviver com estas em qualquer espaço.

Contra Jack há crueldade, sem dúvida, mas ainda lhe resta o poder de criar. Contra sua mãe há a tristeza de saber que tudo o que está fora é melhor, a começar pela liberdade. E quando esta retorna, após anos de clausura, Jack observa o céu – imenso se comparado ao espaço da claraboia – como se fosse capaz de engoli-lo.

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O mundo é grande demais, descobrirá Jack. O filme deixa perguntas interessantes a partir da ampliação desse olhar, e ora ou outra elas retornam ao quarto – o que certamente deixará o espectador pensativo. Por que Jack deseja retornar àquele espaço?

Após um plano bem arquitetado, sua mãe (Brie Larson) consegue fazer com que ele saia do local. Ao pensar que o garoto está morto, seu pai e agressor, chamado de velho Nick (Sean Bridgers), leva-o para fora e Jack finalmente escapa.

Mais tarde a mãe também é libertada. Tem início outra batalha para ambos: para a criança, conhecer o novo espaço aparentemente infinito; para a mãe, enfrentar o mesmo mundo, agora um pouco distorcido, transformado: encarar sua nova realidade.

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Interpretado pelo incrível Jacob Tremblay, Jack reclama quando as regras tornam-se diferentes. O antigo quarto delimitava sua própria realidade, sua própria falsidade, ao passo que o ser humano acreditará apenas no que os olhos podem alcançar.

No quarto, as escolhas podem ser mais fáceis, ou apenas às aparências: Jack poderá escolher a história que lhe cabe melhor. Trancado no armário enquanto sua mãe é abusada, ele sequer conhece a maldade. É uma cápsula com tudo e nada.

O filme vai além do reencontro com a família e, depois, com a mãe. Concentra-se nos movimentos do menino, em seu olhar perdido, curioso, não menos encantador, na forma como descobre o desafio de encarar o mundo e seus novos rostos.

<Nota: ★★★☆☆

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