Andrzej Zulawski (1940–2016)

Os filmes de Andrzej Zulawski são raros. Ousados, eróticos, contestadores, às vezes difíceis de definir. Em apenas um, O Globo de Prata, há ficção científica, figuras religiosas e imagens reais para preencher o que não foi filmado ou o que foi perdido, quando as autoridades comunistas o impediram de terminar o trabalho.

Zulawski viveu entre países. Fez na França alguns de seus melhores filmes, com seu estilo inconfundível, planos-sequências de tirar o fôlego. Sangue e sexo não eram problemas, tampouco gratuitos. O histerismo era constante, o que nem sempre agradava.

possessão

Morreu aos 75 anos neste início de 2016, dono de uma filmografia pouco conhecida no Brasil. Seu trabalho mais lembrado é Possessão (foto acima), com a bela Isabelle Adjani. A sequência em que ela tem sua possessão, no metrô, marcou época.

Se possível, o diretor não recuava: no mesmo Possessão há a polêmica cena em que o marido (Sam Neill) encontra a mulher (a mesma Adjani) fazendo sexo com uma criatura difícil de definir, e que mais tarde daria vez ao duplo do mesmo homem.

Outro assunto caro ao diretor: os duplos. Em A Terça Parte da Noite, os mesmos atores vivem personagens diferentes. O protagonista reencontra a mulher amada, antes morta, em outro momento da vida – e ao fim encontra seu próprio cadáver.

Em Diabel (abaixo), filme que traz todas as características de seu cinema, o prisioneiro Jacob (Leszek Teleszynski) é libertado de um mosteiro e, como o protagonista do filme passado, percorre a trilha que o leva a si próprio, não sem flertar com o inferno.

diabel

A abertura dá a ideia do que enfrentará, quando o próprio Diabo, a cavalo, liberta-o da prisão. Com uma freira, embrenha a floresta húmida de atores ambulantes que o observam, que desejam despi-lo, e que mais tarde voltam a cruzar seu caminho. Passa-se durante a invasão prussiana à Polônia no século 17.

Em casa, encontra o pai morto, a irmã que serve aos prazeres de outro e, à frente, a mãe prostituta – em outra das várias sequências delirantes. Diabel não oferece nada a se apegar. É a imagem do caos, ecos de 68, como observou o crítico Fernando Fonseca.

O cineasta polonês deixa 13 longas, dois curtas. Foi assistente de direção de Andrzej Wajda antes de se estabelecer como grande cineasta. Sob sua direção, atrizes tiveram momentos marcantes, explosivos, como a já citada Adjani, premiada em Cannes.

o importante é amar

Outras devem ser lembradas, sobretudo Romy Schneider – ao lado de Fabio Testi e Jacques Dutronc – no ótimo O Importante é Amar (acima), feito das inconstâncias e diversos mundos de uma atriz, entre a pornografia e o teatro, em colapso psicológico, na abertura, quando deixa ver sua beleza (sua alma) em close inesquecível.

O xamanismo é recorrente, além da metalinguagem – em A Mulher Pública, Szamanka e, claro, O Globo de Prata. No último, astronautas veem-se isolados em um planeta e iniciam outra civilização – não sem repetir os sinais da primeira.

Ou dariam vez à atual, com suas imagens religiosas – as da crucificação incluídas – e problemas recorrentes, como guerras e intrigas políticas? Ao mesmo tempo, narrações perdidas vêm à tona e são preenchidas com registros da realidade.

a revolta do amor

Ao lado de Sophie Marceau, com quem foi casado, Zulawski fez o extraordinário A Revolta do Amor (acima). A abertura traz o assalto a banco mais estranho do cinema. Filme cheio de reviravoltas, de bandidos e escapadas, de amor louco.

Entre os enfants terribles do cinema moderno, o polonês ocupa destaque menor. Não é lembrado como um Pasolini, por exemplo, ainda que à altura. Seu cinema “já não se faz mais nesse minguado e bem comportado cinema contemporâneo que abdicou quase que completamente do radicalismo na temática e nas imagens”, observa Fonseca.

Zulawski fez obras de confrontos, de forma independente e autoral, sem agradar o espectador com caminhos conhecidos e meios acolhedores.

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