Jogo Mortal, de Joseph L. Mankiewicz

O elegante Andrew Wyke convida Milo Tindle para um jogo pouco engraçado. Suas mentiras dizem muito sobre o que pensa e o que pode causar ao outro. As trapaças, em Jogo Mortal, despem esses homens ao centro, de mundos distintos.

A engenhosa história, a partir da peça de Anthony Shaffer, com roteiro do próprio, guarda ao fundo a disputa de classes: o jogo proposto é apenas uma desculpa para que Wyke coloque à frente seus contornos nobres, seu poderio, contra a aparente fragilidade do descendente de italianos que deseja prosperar na Inglaterra.

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O último filme de Joseph L. Mankiewicz começa com a chegada do cabeleireiro Tindle à mansão, labirinto de seu oponente. Ele tem certa dificuldade para encontrar o escritor. O convite à bebida leva ambos ao interior do local.

Tindle é o amante da mulher de Wyke. O jogo espreita as relações: pode ser visto no labirinto, na mesa de bilhar, nos tabuleiros, cercado pela farsa dos bonecos eletrônicos, dos pequenos enfeites que fazem do local a casa dos sonhos de qualquer criança.

Por outro lado, Mankiewicz faz com que pareça pesadelo, palco perfeito a um jogo cujas regras não são reveladas. E jogos podem ser levados a sério. Wyke, o criador, talvez não tenha se atentado a isso em sua posição privilegiada, sobre o tabuleiro.

Não por acaso, o cineasta mostra os homens como peças. Ora ou outra leva a câmera ao alto, captura o movimento e os espaços, passa por salas diferentes, como se um calabouço pudesse conviver com a bela entrada e seus móveis confortáveis.

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O escritor experiente pede que Tindle furte as joias de sua mulher, amante do outro. A ideia é receber o seguro dos objetos valiosos, enquanto o cabeleireiro poderá vendê-los a um terceiro. “Em dinheiro, livre de impostos”, observa Wyke, para fazer brilhar os olhos do ladrão. O escritor sabe que sua mulher custa caro.

O que poderia ser verdadeiro revela-se farsa: Tindle, mais do que perder, tem as fraquezas expostas. Wyke não suporta as raízes italianas do outro, sua tentativa de pertencer à alta classe britânica. Ao aceitar o crime, o jovem revela suas ambições.

Chora ao acreditar em sua própria morte. Para se vingar, fantasia-se, torna-se o policial saído justamente de um livro de Wyke. Os jogos não terminam nunca, cada um dando espaço a outro, sem parar. Com a tragédia, ao fim, vê-se ainda um sorriso de Tindle, talvez vitorioso: é a chegada de outras pessoas, do lado de fora. É a vida real.

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Não há outros atores em cena, apenas Laurence Olivier e Michael Caine. Outras personagens são vistas apenas em fotos ou pinturas. As amantes nunca aparecem. O show pertence a esses dois mestres da atuação, em constante mutação.

A comédia dá vez à tragédia. É um filme sobre falsidades. Olivier e suas certezas seduzem o espectador, mas avisam sobre o que vem a seguir: aquilo não é apenas um jogo. Do outro lado, Caine, contra expectativas, mostra-se um competidor à altura.

Duelo de atores, de personagens. Timing perfeito na condução das situações, entre o choro, o desespero, a corrida de um cômodo ao outro, enquanto Wyke suja-se com carvão, enquanto Tindle tenta, ao fim, vencer o refinado escritor.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Cinco Covas no Egito, de Billy Wilder

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