Reza a Lenda, de Homero Olivetto

O Nordeste brasileiro ainda é palco de velhos problemas. Seus habitantes continuam à espera da chuva, cercados de misticismo e vítimas de oligarcas maldosos e sanguinários. É o que se vê em Reza a Lenda, cujo visual o faz parecer diferente.

Ao invés dos retirantes a pé pelas estradas, o espaço é ocupado por motociclistas armados, de figurinos feitos de retalhos, sujos mas belos – a fazer pensar na gangue embalada pela velocidade e encabeçada por Marlon Brando em O Selvagem.

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Esse visual fez o filme de Homero Olivetto ser comparado a Mad Max, de George Miller, sobre guerreiros renegados do deserto. No outro caso, a miséria é o retrato de um futuro que não deu certo, com todos em busca de gasolina.

Mas Reza a Lenda situa-se no presente, tem jovens ao centro e é feito à forma dos filmes de ação norte-americanos – com direito a muito tiroteio e até luta de facão.

Há a tentativa de causar impacto com puro estilo, sem substância. A tentativa é logo desmascarada: o filme não tem muito a oferecer além de reviravoltas esperadas, com seres de plástico e frases de efeito, com o vilão (Humberto Martins) de fala ponderada.

E tem os velhos problemas já citados. Ao fundo corre a velha saga dos sofridos, alienados quando o assunto é religião e poder, que podem fugir e ficam por ali, a girar em falso, ou apenas para cumprir uma missão: devolver uma santa a seu altar.

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A santa pertence ao oligarca, que ganha dinheiro com o objeto e o expõe em festas embaladas a forró. Após o grupo de Ara (Cauã Reymond) roubar a santa e matar alguns de seus homens, Tenório (Martins) manda mais jagunços atrás dos motociclistas.

Em paralelo estão outras situações: uma garota sobrevive a um acidente e ganha a atenção de Ara, como também de sua companheira (Sophie Charlotte), além de alguns feiticeiros cabeludos, armados até os dentes em pleno Nordeste.

Por isso, e como Mad Max, o filme também remete aos faroestes. Trocam-se cavalos por carros e motos. O Monument Valley dá vez ao deserto australiano ou à caatinga. Desenha-se ali a fita de vingança, às vezes violenta como em uma obra de Sam Peckinpah (a metralhadora giratória faz pensar em Meu Ódio Será sua Herança).

Feita de exemplos variados, como é o caso de Vidas Secas, a paisagem desértica brasileira dá vez agora aos vingadores armados, heróis belos sob a estética do cinema de ação feito fora do país e da propaganda televisiva. Saga que nada tem de impactante, de ousada, que resulta em um filme para se esquecer com facilidade.

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

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