Pecados Antigos, Longas Sombras, de Alberto Rodríguez

Folhetos com ofertas de emprego atraem belas meninas do interior da Espanha. É o tempo do fim da ditadura de Franco, com a promessa – e a propaganda – de um novo mundo. Criminosos utilizam esse momento de passagem tão bem quanto as autoridades: cada lado tem seus motivos para fazer os outros acreditarem nas mudanças.

Os dois policiais de Pecados Antigos, Longas Sombras enfrentam os sinais do mundo passado, da Espanha à sombra de Franco, enquanto se insinuam mudanças.

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Ao chegarem ao quarto do hotel da pequena cidade à qual são enviados para investigar o desaparecimento de duas meninas, um deles, Pedro (Raúl Arévalo), logo trata de guardar o crucifixo que estava pregado na parede, com fotos de ditadores.

O amigo preocupa-se menos com esse fundo político, com os fantasmas do passado: ele próprio, aparentemente perto da morte, já esteve entre os homens de Franco. Juan (Javier Gutiérrez) é falador, mulherengo, e quer apenas levar o trabalho à frente.

Não será fácil: cada nova pista sobre as meninas faz esbarrar em outro caminho. Por ali, política, tradições, selvageria, tortura, tudo leva a pensar na dificuldade de fazer perguntas, de tentar entender a origem dos problemas.

Os policiais – cada um a representar um momento da Espanha, e ambos no mesmo ponto, na transformação do país – buscam respostas. Pedro tem mais a perder. Juan viveu muito, tem uma história palpável, também problemática.

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As meninas, conhecidas por serem “fáceis”, teriam sido seduzidas pela promessa de trabalhar em uma cidade grande e deixar o interior, sob os efeitos do sonho e da ideia de liberdade. Outras meninas – ou todas – também sonham com a possibilidade de escapar.

Por isso, o filme de Alberto Rodríguez não oferece apenas uma crítica ao passado, à mão pesada do regime franquista: o que se impõe é a ilusão com o futuro. E disso resulta um filme poderoso a partir de uma investigação. Ao mesmo tempo, os protagonistas relutam em olhar à questão com mais profundidade.

Às aparências, envolve a caçada a um serial killer, que estaria matando as jovens após abusar delas. Mas o caso vai além: os policiais descobrem que há homens poderosos aliciando as meninas com a ajuda de um rapaz da cidade.

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O espectador terá dificuldade para fechar a jogo, encaixar todas as peças. Ao deixar a trama suspensa, Rodríguez coloca o público na cegueira desses tempos, no começo dos anos 80. O ambiente visto do alto, dos céus, confere a ideia de que é possível enxergar o cenário com clareza, compreender o tabuleiro. Ledo engano.

O mapa que se desenha é outro, íntimo, menor – o do homem que urina sangue e vê a própria morte, o dos animais que explodem na tela, como patos, peixes dilacerados e cervos mortos, ou o da chuva que impede a visão e esconde o assassino.

Aqui, melhor é não saber. Nessa nova democracia, como branda um líder, a verdade precisa ser exposta, é necessário justiça. Será que tudo poderá ser colocado às claras, como em uma verdadeira democracia? Por questões como essa, o filme é mais político que policial, com fantasmas que ainda persistem.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Pegando Fogo, de John Wells

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