Contratempo, de Nicolas Roeg

Com jeito livre, a mulher é incontrolável. Parece fácil, tocada, em alguns momentos uma menina explosiva, que não deve ser levada a sério.

Ao longo de Contratempo, o espectador fica na posição de seu companheiro, interpretado pelo poeta e cantor Art Garfunkel: ele tenta compreender as intenções e os caminhos daquela garota inconsequente, que teria (ou não) tentado o suicídio.

contratempo

Como em seus filmes anteriores, em especial Performance, de 1970, o diretor Nicolas Roeg apresenta uma obra feita de recortes. Seu cinema deseja “aparecer”, expõe ao público fusões, idas e vindas, e em algumas passagens personagens de tempos diferentes se encontram na tela, no mesmo ambiente.

A aproximação ao radicalismo também está no recheio: a história sobre a relação de Milena (Theresa Russell) e Alex Linden (Garfunkel) tem momentos fortes, com o intenso desejo dela, também as negações, sua promiscuidade, e leva aos atos de desespero dele: fechado, misterioso, supostamente centrado.

Aqui, mostra Roeg, o impensável toma forma. Alguma monstruosidade – então escondida – dá as caras. Contratempo centra-se nas supostas maluquices desses dois seres diferentes que se aproximam e se entregam aos prazeres da carne.

Os pedaços, ao público, permanecem soltos: o que teria ocorrido antes será revelado aos poucos, à medida que uma terceira personagem de peso, o investigador de polícia, passa a remexer tudo, a posicionar, a dar organização à história.

contratempo2

Alex é o responsável por socorrer Melina na noite em que ela teria tentado se suicidar. Acompanha-a na ambulância e depois permanece no hospital até ser interrogado. A polícia deseja saber o que há por trás daquele ato de desespero e da frieza de Alex.

Ele e o policial, vivido por Harvey Keitel, tentam parecer equilibrados e escapar de qualquer suspeita. Impõem interpretações dentro de outras para esconder traços de obsessão: um pela mulher perto da morte, o outro pela investigação em curso.

Nesse tabuleiro, Melina é a vítima e ao mesmo tempo o furacão de sentimentos e desejos. Roeg utiliza interessantes paralelos. Sequências de sexo fundem-se aos momentos em que a moça é atendida no hospital. Ao fim, de volta ao apartamento, Alex e o policial reconstroem, em conversas, o crime ocorrido pouco antes.

contratempo3

Nem sempre é fácil definir o que Roeg deseja: sua história de amor louco não se parece com quase nada. Em outros pontos, aproxima-se do filme de espionagem, na Guerra Fria, enquanto a mulher ao centro não deixa saber sobre seu passado.

Chega-se assim, talvez, à chave do enigma: Melina não quer saber nada, investigar nada ou fazer com que sua história venha à tona; deseja apenas viver o momento. Alex quer investigar, quer saber, ir fundo nas particularidades da mulher, enquanto se deixa levar. Fica cego, preso àquele labirinto, fecha-se em sua frieza.

Deixa ver alguém normal enquanto é interrogado. “Passeio boa parte da minha vida tentando entender o que é ser normal. Ainda não sei”, diz ele ao policial. Melina, a vítima, desafia-o: é algo que o inteligente professor não pode controlar.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os 100 melhores filmes dos anos 80

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s