Beasts of No Nation, de Cary Joji Fukunaga

Não demora quase nada para a câmera de Cary Joji Fukunaga retornar ao olhar triste do pequeno protagonista, a criança convertida em soldado, Agu (Abraham Attah).

Nada mais do que ela, ou pouco além, tem-se em Beasts of No Nation. Não precisa de palavras em excesso, sequer de narração: o essencial continua no mesmo olhar, nessa dúvida e nessa dor, na estranha relação com o público.

Beasts of No Nation1

O que há de estranho pode ser explicado: ao mesmo tempo em que se mostra tão frágil, tão delicado, o menino é também bruto, a recusar o amor dos outros – e do público. Às vezes próximo, distante em outros vários momentos.

Agu vive com a família em um país africano tomado pela guerra civil. Antes, vive em uma área isolada pelo exército. Local aparentemente seguro no qual brinca com os amigos, em uma infância como muitas não fosse o medo das barreiras.

Primeiro, o medo dos adultos. As crianças brincam, quase não deixam espaço para o medo. E quando a situação é outra – a hora de mudar, de fugir, de aceitar a morte e o sumiço dos familiares –, não resta outra coisa senão se embrenhar na mata, e ter medo.

A saída para Agu é semelhante à de outras muitas crianças: ele é arrebanhado por uma milícia armada. Primeiro tem de carregar armas, depois aprende a matar – com facão, para ser mais selvagem – e, mais tarde, ganha o direito de portar uma metralhadora.

Beasts of No Nation

Não é bem a saída, é o que resta. A mata fechada não deixa outra escolha, ainda mais quando os adultos – os soldados, os selvagens – praticamente o obrigam a tomar o único caminho para sobreviver: servir ao mestre, matar o inimigo.

Não é um filme que precisa avisar sempre ao espectador que a criança está perdendo sua natureza livre, sua inocência, o melhor período da vida. É um filme em que a brutalidade maior está no parco movimento, na pequena aceitação, à medida que Agu passa a fazer parte do que os outros costumam chamar de “família”.

Altas doses de sangue e violência podem ser justificadas: o diretor Fukunaga precisa mostrar o oposto exato à primeira natureza de Agu, menino que, no início, brincava com sua televisão imaginária, ao lado dos amigos, pelas ruas.

O oposto é o sangue que jorra da cabeça de uma vítima, em uma das tantas mortes banais. Matar por matar, pelo poder dos outros, às ordens do comandante facínora interpretado com maestria por Idris Elba. O argumento é sempre o mesmo: ele explica a Agu que a morte dos outros é necessária. É sempre o “nós contra eles”.

Beasts of No Nation3

O oceano, com suas inúmeras possibilidades, chega a ser irônico ao fim: Agu olha para o mar como se não conseguisse fazer muita coisa, como se houvesse tanto a fazer, tanto a explorar, que não pode ir além de alguns metros. Talvez não tenha deixado seu estado anterior, o do assassino, o do garoto que conhece pouco ou nada mais.

Em uma das melhores sequências do filme, a milícia armada segue em uma fileira de carros. Todos os jovens – armados até os dentes – estão pendurados nos carros, como uma tribo futurista, como se a realidade tocasse o futuro de Mad Max.

Chegam então aos corredores da política, quando o comandante de Elba é obrigado a esperar, é obrigado a entender que o mundo ao redor – para fora da mata, governado por poderosos e burocratas – ainda se nutre da boa e velha política. Estão ali outros homens, que reconhecem Agu apenas como parte da engrenagem.

Nota: ★★★☆☆

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