Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino

A diligência representa o espírito do Oeste. Em seu interior podem conviver homens e mulheres diferentes, todos a cruzar o país em formação. É justamente o que se vê no maior clássico do gênero, No Tempo das Diligências, de John Ford.

Até chegar a Quentin Tarantino, o gênero passou por inúmeras mutações: de heróis, alguns caubóis transformaram-se em bandidos e fujões, as mulheres não eram mais confiáveis, os xerifes podiam ter medo e se render aos arruaceiros.

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Com Os Oito Odiados, Tarantino de novo convoca a imagem da diligência: em suas primeiras cenas, uma delas cruza a gélida paisagem e, no interior, leva um caçador de recompensas (Kurt Russell) e uma criminosa (Jennifer Jason Leigh) condenada à forca.

No caminho, eles encontram outro caçador de recompensas (Samuel L. Jackson), um negro que sobreviveu à Guerra Civil defendendo o Norte, munido de uma carta que teria recebido de ninguém menos que o presidente americano Abraham Lincoln.

Ainda no meio do caminho, e antes de chegarem à casa de madeira na qual boa parte do filme desenrola-se, encontram outro homem, um sulista ressentido, falastrão, a típica personagem cômica aparentemente medrosa, aqui um futuro xerife.

Aos poucos, Tarantino compõe, dentro de regras estritas, sua visão da História americana – às vezes deturbada, às vezes verdadeira – a partir de um bando de trapaceiros e inconfiáveis, sem qualquer heroísmo, presos a alguns velhos rituais.

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E, também aos poucos, e à medida que o filme ganha doses de sangue, todas essas figuras começam a destruir suas próprias máscaras: a certa altura, ninguém escapará de falsidades e interesses – talvez à exceção do cocheiro, que morre cedo.

Os problemas envolvem duas questões: a moça condenada à morte, para quem existe um plano de resgate, e as diferenças entre essas personagens, entre homens do norte e do sul, entre negros, brancos e mexicanos.

A exemplo de outros filmes de Tarantino, os homens não hesitam em apontar diferenças. Sob gritos, resta a falsa importância do ritual, das regras, dos documentos que, no fundo, para nada servem – e tampouco impedirão o derramamento de sangue.

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Sem heróis e vilões, Tarantino escancara os podres de sua nação – não a partir de fatos concretos, mas de diálogos, olhares, tipos estranhos, de estereótipos sobre estereótipos, da falsa ideia de cavalheirismo e respeito, o que invariavelmente expõe o desejo no interior de cada um: sacar suas armas e matar uns aos outros.

No fundo, o filme resume-se à selvageria. Tarantino compõe personagens e intenções com longos diálogos e as sucede com balas cruzadas. Quem ficou assustado com a famosa cena em que John Travolta mata acidentalmente um rapaz negro em Pulp Fiction, no banco do carro, pode esperar por mais sangue e miolos.

Em cena, o destaque fica com Samuel L. Jackson, especialista em criar tensão, em mesclar alegria e dor, ou apenas em satisfazer os desejos do público com seu olhar cruel. O que importa, diz, é o prazer de estar ali.

Nota: ★★★☆☆

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