Dheepan: O Refúgio, de Jacques Audiard

Como outros homens do cinema de Jacques Audiard, Dheepan (Jesuthasan Antonythasan) ora ou outra se deixa levar pela violência. Não que queira. É como se o universo obrigasse-o a liberar o lado selvagem e até matar.

Dheepan escapou de uma guerra e acabou em outra: imigrante saído do Sri Lanka, ele foi para França tentar nova vida com uma família recriada. Fingem ser marido, mulher e filha, fingem laços que não existem, e aos poucos começam a conviver.

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O filme de Audiard mostra a dificuldade em construir uma família, em se integrar ao diferente. É também sobre a imposição das divisões, dos territórios, sobre a falsa ideia de progresso no país europeu forjado sob a bandeira da tolerância.

A língua permite falsificar outra realidade e, para Dheepan, será a forma de conversar com seus pares sem ser ouvido pelos outros, ou, no caso da língua francesa, outra batalha a ser vencida. Por isso, ele e a companheira sofrem para entender os outros.

Não se trata de um filme entre tantos sobre o sofrimento dos imigrantes na França, ainda que pareça. Audiard trata o assunto pelo ponto de vista dos enclausurados, de pessoas que vivem em um condomínio popular com suas próprias regras, no qual criminosos montam um estado paralelo, suas leis, e ali vendem drogas.

É sobre o poder e seu oposto: sobretudo, um filme sobre a impotência a partir do olhar acuado do imigrante, sempre a ser visto como diferente, a passar pelos outros como alguém impossível de não se notar – seja como estrangeiro, seja como zelador.

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Em Dheepan: O Refúgio, é interessante observar como a companheira do protagonista, Yalini (Kalieaswari Srinivasan), será aos poucos tragada ao universo dos estranhos – sedutor, barulhento, com seus homens em carros grandes e salas fechadas.

Ela passa entre corredores escuros, entre o cão branco, e vai ao pequeno apartamento para cuidar de um homem doente. O sobrinho desse senhor acaba de sair da cadeia, é recebido como rei em seu espaço, com direito à queima de fogos e festa.

A poucos metros, Dheepan e a mulher observam os estranhos e seus costumes, o outro estado de poder estabelecido. Ao que parece, as coisas, para todos, não mudaram tanto. Os homens são mais parecidos do que se podia supor. E quando ocorre um tiroteio, o protagonista traça uma linha para dividir territórios.

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Dheepan desespera-se. Canta para exorcizar demônios e entende que não resta outro caminho senão o da violência. Vive no limite, como outras personagens de Audiard, como Paul de Sobre Meus Lábios, ou o intransigente Thomas de De Tanto Bater Meu Coração Parou, ou ainda o novo chefe do crime em O Profeta.

Cada um deixa ver a história pelos poros, à força das situações. Em seus delírios, o protagonista verá um elefante saindo da floresta, entre folhas, representação de seu próprio estado, aos poucos colocado em evidência.

Para Audiard, as relações sempre guardam formas brutas, e quase sempre terminam em conflitos. São inevitáveis. A história do homem é essa, parece dizer o diretor: a violência torna todos semelhantes, em qualquer ponto do planeta.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Jacques Audiard

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