O boxe, o afeto e a penitência

As personagens de Menina de Ouro encontram afeto graças ao boxe. No filme de Clint Eastwood, não se trata do afeto entre lutadores, mas entre a atleta e seu treinador, a moça doce e o homem mais velho, em relação de contornos paternais.

Frankie Dunn (o próprio Eastwood) é o tipo ranzinza que ainda não fez as pazes com a vida: depois de tantos anos, continua o mesmo, sem evidenciar os problemas do passado, com idas frequentes à igreja talvez em busca de respostas e perdão.

menina de ouro

No trabalho, ele treina atletas que certamente ganharão títulos, mais tarde, sob a tutela de outros homens de negócio – enquanto Dunn assiste às lutas pela televisão.

Um de seus lemas é repetido frequentemente em Menina de Ouro: “Eu não treino mulheres”. O lema será dito para que se instale, depois, a contradição: como lhe ensina a vida, mais de uma vez, homens são traídos por palavras.

O filme de Eastwood, entre socos e pessoas difíceis, aposta nas palavras de afeto. A moça a ser treinada por Dunn passa a ocupar o vazio deixado pela filha que devolve cartas ao pai. Ele guarda todas em sua caixa de sapatos, no alto do armário.

Enquanto é possível supor muito sobre Dunn, quase nada se imagina sobre Maggie Fitzgerald (Hilary Swank). Ela emerge das sombras em sua primeira aparição, como se já nascesse – à tela – com contornos de boxeadora.

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Sua alegria deixa ver alguém amável, incapaz de trocar o velho ranzinza por outro treinador. O boxe resume-se ao esconderijo possível, à ocultação do que a vida tem de pior. O que mais importa no filme de Eastwood está fora do ringue.

Além de Dunn e Maggie há uma terceira peça, tão importante quanto as outras. É o atleta aposentado Eddie, interpretado por Morgan Freeman. Cabe-lhe o papel de observador e anjo da guarda, alguém a unir os lados, a conduzir a narração.

Ele tenta fazer com que Maggie escape de Dunn, para a surpresa do público, talvez prevendo que tamanho afeto leve a um caminho difícil. Como todos, é sentimental e não deixa ver. Cego de um olho, observador, atento às histórias ao redor.

Estranho afeto, em pequenas doses, pode ser observado também em Touro Indomável (foto abaixo), de Martin Scorsese, outro grande filme sobre o universo do boxe. O protagonista, Jake La Motta (Robert De Niro), não consegue demonstrar seus sentimentos.

touro indomável

Se comparado a Menina de Ouro, o caminho é oposto: o drama empurra o protagonista aparentemente sem coração ao interior do ringue, nunca para fora. Mais tarde, quando é preso, só lhe sobra socar as paredes, forma de expressar a dor.

Momento significativo à composição dessa personagem enérgica é o primeiro contato com sua futura mulher, Vickie (Cathy Moriarty). Como em outros momentos, La Motta precisa do intermédio do irmão Joey (Joe Pesci), também seu agente.

Atacado por seus próprios demônios ao longo de Touro Indomável, o protagonista leva seus arrependimentos ao ringue: entre socos e sangue, sob a câmera realista de Scorsese, chega-se então à penitência. O filme assume contornos religiosos.

O La Motta de Scorsese tem um pouco de seu próprio autor: entre mafiosos e poderosos, nas noites em bares ao som de canções românticas, ele mostra-se deslocado. À frente, tenta a redenção – já gordo e deformado – com piadas e versos ao microfone.

O inimigo desse homem descontrolado é ele próprio. Scorsese prefere o realismo frio e a decadência. Eastwood aposta no som da voz forte de Freeman e no caminhar a lugar nenhum de suas personagens, vítimas de estranho destino.

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