A Visita, de M. Night Shyamalan

Hospedados na casa dos avós que não conhecem, uma menina e seu pequeno irmão embarcam em uma jornada de descobrimento. Sempre com câmeras ligadas, eles filmam a própria vida: estão perto da morte e do perigo e, por isso, começam a crescer.

Não por acaso, é quando se voltam às câmeras, em A Visita, que deixam ver mais que o relevo do filme terror. Eles confessam traumas passados, sentimentos perdidos, momentos que viveram e que ainda pretendem superar.

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No filme de M. Night Shyamalan, esse estranho processo de crescimento – à beira da morte, do som das pessoas mais velhas que vagam pela noite – é o que mais interessa.

À frente, escancaradas, estão as doses de suspense, também as de comédia. O filme faz rir em alguns momentos, o que é proposital. A mistura é estranha e talvez se justifique graças à ótica desses jovens assustados e brincalhões.

Entre a infância e a adolescência, os irmãos vivem um momento de transição: para cada um deles, ou para ambos, Shyamalan não deixa ver apenas um gênero, ou um mundo absoluto. Em seus filmes, o cineasta recusa o que parece plano, ou fácil.

Antes, em Corpo Fechado, o super-herói vivia com crise de consciência, em meio a um mundo que precisava criá-lo. Não por acaso, quem foi em busca de um típico filme de heróis certamente saiu frustrado: encontrou um pouco da vã realidade.

A Visita pode surtar o mesmo efeito: passa longe do típico filme de perseguição, em que os jovens procuram cada canto da casa escura para escapar dos assassinos, em que tentam alcançar o cômodo proibido e não conseguem ajuda por perto da casa.

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Longe disso, a obra aposta no poder do olhar e, até certo ponto, questiona o espectador se todo aquele pavor realmente existe ou se é fruto do ponto de vista das crianças, da câmera ligada sempre em momentos oportunos.

Descobre-se, mais tarde, que realmente há algo perigoso por ali. O filme de Shyamalan ganha novos contornos, aproxima-se de um gênero, e os jovens em cena precisam encarar seus próprios medos confessados às câmeras que carregam.

Como antes, em outros filmes do diretor, as peças precisam se encaixar, e sempre vale esperar, no fim, alguma revelação, ou alguma tentativa de levar ao inesperado.

Um filme forte, de mutações, no qual o casal de velhinhos (Deanna Dunagan e Peter McRobbie) funciona bem e assusta, e no qual os jovens (Olivia DeJonge e Ed Oxenbould) também cumprem suas funções com maestria.

Em aparente tom menor, sem medo, às vezes, de parecer bizarro, Shyamalan constrói com segurança uma história sobre o medo, sobre o perdão, em que ver menos é o suficiente, em que o desejo de ver mais – dos adolescentes – leva sempre ao pior.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Vingança ao Anoitecer, de Paul Schrader

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