Pegando Fogo, de John Wells

O nome Adam Jones é repetido várias vezes. Aos poucos, o espectador começa a acreditar que ele realmente é tudo o que parece, ou o que diz a lenda. Sua volta por cima, em Pegando Fogo, inclui muita correria, amores e desafetos.

Com elenco correto e bom ritmo, o filme de John Wells ainda assim desagrada: ora ou outra, a obra afirma que Jones não é alguém comum. É um gênio. E os gênios sempre precisam parecer desajustados, não raro sem controle.

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São um pouco loucos, neuróticos, brigam e jogam tudo para o alto: nesse terreno, o que importa é a satisfação. Como o herói deixa claro, nem dinheiro está em jogo. O que vale é a excitação, a corrida, a maneira como ele precisa afirmar a perfeição.

A perfeição do prato montado, do tempero, dos pequenos pedaços que, à mesa, dão certo ar artístico. Nesses grandes restaurantes caros em que a frente e o fundo são obviamente diferentes, não se nega à culinária seu caráter de arte.

E, como um Mozart belo, Jones lança à tela todas as suas forças, colocando ao lado, por sua vez, o esperado Salieri – ótimo no que faz, mas não genial.

Os obstáculos não escondem atalhos: no filme, montar um restaurante é mais fácil do que parece; dobrar o salário de alguém, ou triplicá-lo, apenas um gesto à toa. Em Pegando Fogo, ninguém deixa de ver o sucesso, tão próximo e aparentemente fácil – complicado apenas para o homem cujo maior algoz é si próprio.

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Ele, Jones, precisa encarar o espelho. É o que lembra seu chefe, a certa altura, para reforçar o que já se sabe. O filme é cheio de situações esperadas e quase consegue escondê-las com velocidade e distância, com o drama que brota entre a comédia.

Esse falso mundo difícil, feito de demônios internos, com seu gênio que precisa se enfrentar, resulta cansativo. Ninguém duvida de seu poder, de que, a certa altura, será penalizado pelo passado frequentemente em voga. É questão de tempo.

Na grande cozinha, Jones comanda com punho firme. “Sim, chef!”, gritam os outros, sob suas ordens. Quando precisa, ele joga pratos na parede e ordena que uma de suas funcionárias – seu futuro caso de amor – peça desculpas a um cubo de carne.

O ator Bradley Cooper é a escolha correta para viver Jones. Nos recentes O Lado Bom da Vida e Sniper Americano, ele provou ser o tipo ideal para homens perturbados, com dificuldade para se relacionar ou lidar com si mesmo.

Seu olhar tem um fundo inocente, como se pedisse perdão ao espectador, ou como se tentasse conquistá-lo com a afirmação implícita de que é alguém bom demais, com o direito à volta por cima. Não dá para acreditar no oposto.

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Os 33, de Patricia Riggen

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