A saga de Bill Rohan

Enquanto os adultos estão mais preocupados em jurar amor à bandeira e, a distância, condenar as atitudes de Hitler, crianças como Bill Rohan brincam entre o barulho das bombas. Os destroços forjam ambientes perfeitos para garotos como ele.

O diretor John Boorman, em Esperança e Glória, visita sua infância sob os efeitos da Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra. Ele é o pequeno Bill, com os olhos pregados no filme de faroeste, ainda no início, enquanto crianças pulam sem parar na sala de cinema.

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As crianças são sempre tratadas como crianças. E se por um lado elas parecem verdadeiras, por outro não se exclui o poder da imaginação, a forma como alguns absurdos ganham tom engraçado e como a nostalgia permite distorção e até exageros.

Isso não é novidade e já foi visto antes em obras como Amarcord, para ficar apenas em um exemplo. Boorman revisita a infância com comédia: sua família – pai, mãe e duas irmãs – tem traços inesquecíveis, e é transformada pela guerra.

Quando tudo parece pender ao drama, a câmera retorna ao rosto de Bill, que lamenta; quando tudo parece ser engraçado ou absurdo demais, de novo a chave está no menino: ao que parece, ele pode ser mais maduro que os adultos em cena.

Em Esperança e Glória, as crianças não desejam descobrir o mundo adulto. A própria guerra já impõe o seu pior: dos céus, as bombas caem em locais diferentes, de forma aleatória. Nesse sentido, esse mundo doentio – e adulto – força sua própria entrada.

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Ao contrário, Bill deseja apenas viver. É o sinal da infância. As crianças estão alheias – ou quase – ao conflito. Preferem as partes, não o todo. No caso de Bill, preocupa-se com seus bonecos de chumbo, ou com os estilhaços de bomba que estão em sua casa quando há um incêndio.

O diretor toma lição com Vittorio De Sica e seu monumental Ladrões de Bicicleta, do período neorrealista italiano: em uma jornada de erros, as crianças podem servir de guia aos adultos, sem perder por isso suas principais características e necessidades.

No caso de Bill, há o toque do tempo, da memória. O filme é narrado a partir das lembranças do adulto. Lembra-se do pai militar que traz para casa a geleia dos alemães, da mãe que flerta com outro homem, da irmã que se entrega aos prazeres com um soldado canadense e dos meninos que juntam armamentos com o que sobra entre as casas destruídas pelas bombas e que aos poucos se deparam com o sexo oposto.

A guerra é absurda, o mundo militar também. Na sequência mais famosa de Esperança e Glória, um menino agradece a Adolf Hitler pela bomba que explode em sua escola. As crianças, assim, não terão aula, e Bill pode retornar para a casa de campo com o avô.

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Em 2014, 27 anos depois, Boorman retorna à saga de Bill Rohan com Rainha & País (foto abaixo). Apesar de o clima ainda dar vez à comédia de descobertas, algo se transforma.

É a imposição do próprio tempo, a impossibilidade de o diretor – dessa vez de olho em sua juventude – abordar o passado com alegria, ainda que tente. Bill, mais velho, é convocado para o serviço militar. A guerra ainda não chegou ao fim.

As bobagens do mundo adulto continuam por ali, nos livros militares e suas regras, nos líderes que abusam do poder e, sobretudo, do tom de voz e das tradições. No fundo, são homens fracos, contra os quais estão os despreocupados como Bill.

É, de novo, um filme sobre a tentativa de driblar o mundo opressivo e chato, que lança bombas e se impõe a todo o instante. O menino, ao se tornar soldado, busca seu lugar no mundo, como se não houvesse muitas opções.

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Como ele próprio dirá, no início, ao ver algumas pessoas fazendo um filme perto de sua casa, a vida não deixa repetir determinados atos. É diferente do cinema. Tal observação faz pensar no próprio Boorman e em sua direção, na sedução da câmera, do espetáculo no qual tudo não deixa de ser falso e paradoxalmente verdadeiro.

Ao terminar com a imagem da câmera, é como se Boorman enfim chegasse à realidade, àquela parte que não deixa espaço ao falso – contra tudo o que veio antes, em Esperança e Glória e Rainha & País. O mundo em guerra ou o militarismo de quartel será sempre uma saída ao absurdo, à brincadeira insolente por natureza.

Com a câmera, ao fim, chega-se à maturidade, à formação do homem que descobre o cinema. Ao longo de sua vida, os filmes já estavam por ali, primeiro para distrair, depois para questionar – como é o caso de Rashomon, obra-prima de Kurosawa.

No mundo adulto, Bill deixará de brincar entre destroços. O ambiente ao redor fica mais frio. Um amigo antes divertido – agora sem uma perna, no hospital – não tem a mesma graça. O jeito é recorrer à câmera, com sua maneira de representar o passado.

Notas:
Esperança e Glória: ★★★★☆
Rainha e País: ★★★☆☆

Veja também:
A Trilogia da Vida, de Pier Paolo Pasolini

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