No Coração do Mar, de Ron Howard

A equipe do navio Essex é essencialmente composta por jovens, dado que chama a atenção em No Coração do Mar, de Ron Howard. Quem conhece algumas aventuras sobre embarcações do passado, a começar por Moby Dick, pode estranhar.

Não há por ali a figura do velho louco, carrasco, alguém como o capitão Ahab da clássica história de Herman Melville, ou o capitão Bligh de O Grande Motim. Os homens da aventura de Howard poucas vezes se aproximam da insanidade.

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À primeira vista, esses homens de bom temperamento foram condenados por uma força maior, como se a grande natureza tivesse mandado seu monstro para castigá-los. Nesse sentido, o filme permite contornos místicos – o que o diálogo faz questão de corroborar.

A história contada por Howard, a partir da obra de Nathaniel Philbrick, é sobre a criação de Moby Dick. Melville (Ben Whishaw), seu autor, descobre a tragédia do navio baleeiro Essex e sai em busca do último sobrevivente para resgatar seu relato.

Em uma noite regada a uísque (e, por isso, contornos fantásticos são mais prováveis), ele torna-se ouvinte de Thomas (Brendan Gleeson). O que se revela – mais que o conflito entre homem e baleia – é o sentimento de seres que se descobrem grãos de areia no meio do universo, fracos se comparados à natureza vingadora.

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É também a história de dois homens diferentes, Owen Chase (Chris Hemsworth) e George Pollard (Benjamin Walker). O primeiro é um caçador experiente, o melhor no ofício, interessado em se tornar capitão. O segundo, com um sobrenome importante e um pai rico, é justamente quem ficará com o posto.

O problema é que Pollard não tem experiência para comandar a embarcação. Um de seus erros é colocar o navio contra uma tempestade, e ir contra os argumentos de Chase. Ainda que haja respeito na relação, logo eles tornam-se rivais.

O duelo faz pensar no filme anterior de Howard, Rush: No Limite da Emoção, sobre a rivalidade dos pilotos James Hunt e Niki Lauda. O diretor é atraído por histórias de homens em situações extremas, como se viu também em Apollo 13.

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No mar, contra a grande baleia, as personagens pouco ou nada podem fazer. A saída é aprender a conviver com as diferenças: enquanto Chase acredita ser um grão de areia, Pollard ainda vê o direito do homem em ocupar todos os cantos do mundo.

Não estranha se alguém enxergar nessas diferenças a ruptura entre passado e futuro: entre o homem iluminista e o outro, preso à religiosidade, crente de que ainda pode ser o centro do universo. Na contramão dessa tentativa de conhecer a si mesmo, o monstro não permite sentido: em suas investidas, conhece apenas a destruição.

Acaso ou destino, No Coração do Mar é uma aventura empolgante, talvez não menos ficcional que a obra que originou. Não raro, a ficção é mais interessante.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
O Grande Motim, de Frank Lloyd
Cinco filmes recentes sobre pessoas em situações extremas

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