O Homem Que Queria Ser Rei, de John Huston

O esporte praticado pelos nativos chama a atenção dos britânicos em O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston: em uma espécie de “polo afegão”, eles transformam a cabeça humana em bola, para o desprazer dos recém-chegados exploradores.

O desprazer logo dá vez ao comodismo: os dois homens de fora desejam dominar essa região distante. Talvez se tornem reis, enriqueçam.

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Ao escritor Rudyard Kipling, que ganha destaque como uma das personagens, a aventura anunciada pelos dois homens mais parece loucura: atravessar um território difícil, da Índia sob o comando britânico ao território do Afeganistão.

Embrenham-se em tribos, com armas em punho, com o jeito malandro que Sean Connery e Michael Caine conferem aos protagonistas. Para Kipling (Christopher Plummer), eles não mentem: querem se dar bem, dominar os outros.

Até certo ponto, dá certo: suas armas e os ensinamentos do exército permitem que façam promessas, como deuses para salvar os maltrapilhos. Os nativos são enganados com facilidade. Um deles fala inglês, já foi levado pela malícia dos colonizadores.

Logo, a entrada de Daniel Dravot (Connery) e Peachy Carnehan (Caine) torna-se mais fácil: possuem um tradutor e, sobretudo, sorte. Ao contrário de Peachy, Daniel começa a enxergar algo a mais: talvez tudo não passe de obra do destino, e talvez ele – com a barba avantajada, grande e forte – nasceu para governar a região.

A partir da obra de Kipling, Huston faz uma poderosa crítica ao colonialismo. Crentes em sua superioridade, mas malandros sempre, os homens ao centro ensinam seus súditos ignorantes a matar como “homens civilizados”, nas palavras de Daniel.

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Pouco a pouco, começam a conquistar novas tribos, novos castelos. Daniel, salvo da morte graças a um de seus artefatos, ao receber uma flechada, é considerado um deus, o descendente espiritual de Alexandre, o Grande, que antes havia governado o local.

O diretor conduz a aventura com graça. Seus heróis nunca perdem a vontade de viver, mesmo quando encaram os piores momentos. Huston foi um aventureiro bebedor, e seus filmes não escondem a delícia que o risco envolve.

Isso não significa que não leve o material a sério. Ele quase sempre prefere tomar distância dos nativos. O filme é contado pelo ponto de vista de Peachy, que retorna a Kipling para relatar como o poder pode ser – ou quase sempre é – volúvel.

O tesouro reserva-se à aventura, à simples piada bem contada, à história que se degusta talvez sem acreditar em cada detalhe. A história de Peachy é, ironicamente, uma história de destino, não de acaso – como quase toda boa história parece ser. Huston não escapa desse caminho: satisfeitos, seus homens cantam até mesmo à beira da morte.

(The Man Who Would Be King, John Huston, 1975)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
À Sombra do Vulcão, de John Huston

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