De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

Mesmo inclinado a fazer sempre o pior, resta o caminho ao recomeço ao protagonista de De Cabeça Erguida, Malony (Rod Paradot). Por isso, o filme de Emmanuelle Bercot é mais otimista do que pode parecer.

O garoto furta veículos e pratica outros crimes. Gosta de música alta, excitação, em momentos para esquecer os problemas. Ele enfurece-se quando é reprimido, quando tem de dar explicações à juíza Florence Blaque (Catherine Deneuve).

de cabeça erguida

De Cabeça Erguida é feito de ação, de choques do menino contra o mundo – como ocorre em outros filmes sobre a delinquência juvenil. Entre eles, claro, um exemplo sempre vem à mente: Os Incompreendidos, de François Truffaut.

No turbilhão de Malony, todos (ou quase) acreditam nele, ou parecem acreditar. Há quem veja problema nisso, há quem não se canse. Alguns parecem não perceber que a principal peça, ao contrário do que se vê, está contra o menino: sua própria mãe.

Sem julgá-la, Bercot mostra como rejeita o menino e mesmo o papel de mãe – talvez de maneira inconsciente. Não é necessário o drama convencional para se compreender as dores das personagens, sobretudo as da juíza, que ainda tem fé no menino.

É sobre curiosa benevolência e, por isso, otimista – nunca artificial. Pois a juíza ainda será capaz de condená-lo, de separar seus sentimentos do espaço do tribunal, composto por salas fechadas. A exceção é o momento final, quando o protagonista, então no papel de pai, caminha para longe do grande prédio.

de cabeça erguida

A sensibilidade é estranha em meio a tantos problemas. Por sinal, os problemas parecem intermináveis: Malony rouba carros, confronta todos, foge da instituição para menores e retira o irmão menor do mesmo local quando este é separado da mãe.

Quase nada dá certo para o garoto. À frente, ele conhece uma menina de cabelos curtos, chegada a socos e chutes. Ela apaixona-se, enquanto ele apenas segue a vida, como sempre, como se não fosse nada de muito importante.

O belo trabalho de Bercot não pretende explicar os olhares perdidos dos meninos, de Malony e outros. De Cabeça Erguida preenche lacunas com a aparente esperança da ação: momentos em que o protagonista ainda pode dizer “eu te amo”, ou quando pode correr para revelar seu amor à jovem companheira.

Não há, ainda assim, grandes esperanças. Há uma saída para a rua, para o novo papel, para um universo novo que talvez não seja muito diferente do passado, de costas para o grande prédio da Justiça. Ainda assim, caminhos contrários. Resta o movimento humano, sem explicações simples ou as legendas de sempre.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s