Cinco Covas no Egito, de Billy Wilder

O espectador tem de se esforçar um pouco para ver ambiguidade na personagem de Anne Baxter, a francesa que talvez esteja disposta a negociar com alemães. E nem sempre é fácil ver heroísmo na personagem central, vivida por Franchot Tone.

O momento é a Segunda Guerra Mundial, quando o soldado britânico quase morto John J. Bramble (Tone) sobrevive à insolação, às areias, e, de seu tanque, rasteja até um hotel quase esquecido, no Egito, onde é recebido pela francesa e o dono do local.

cinco covas no egito

Logo surgem os alemães em Cinco Covas do Egito. O dono do hotel (Akim Tamiroff) sofre a cada movimento do inimigo, que pode descobrir o britânico. Já a moça francesa parece determinada a entregar o herói, não quer perder tempo com sentimentos.

O diretor Billy Wilder tenta, a todo custo, rejeitar o heroísmo fácil: como outros realizadores de seu tempo, vindos da Europa para Hollywood com acidez cômica para regimes totalitários, preferia rir dos problemas do mundo.

Mas Cinco Covas do Egito não é apenas isso. A certa altura, ganha contornos sérios, o que a imagem final, ufanista, não deixa mentir. É o filme de guerra de estúdio, mas com a marca de Wilder – nem sempre evidente como em outras vezes.

Se no anterior A Incrível Suzana a natureza do material – a comédia screwball – permitia a Wilder ser o que tanto desejava, e apesar das imperfeições, a obra seguinte não vai além do produto conhecido, o material antinazista.

kinopoisk.ru

Nos rumos da história, Bramble assume a identidade de outro homem, que por sua vez também havia assumido a identidade de outro. Sem querer, torna-se um espião nazista e, mesmo não sabendo os planos em seus detalhes, solta palpites e deixa que os alemães entreguem-lhe os passos seguintes dessa guerra travada em diálogos e pequenas voltas.

Wilder sabe da necessidade da ação. Seu texto, em parceria com o fiel Charles Brackett, mais uma vez explora a afetação inimiga, da sua crueza e suposta amabilidade: os vilões nazistas são sempre idiotas e, por isso, cômicos.

Depois de interpretar o líder alemão com consciência em A Grande Ilusão, sobre a Primeira Guerra Mundial, o grande diretor e ator Erich von Stroheim fica com a melhor personagem, o vilão Marshal Erwin Rommel, que, crente da vitória, fala sobre como derrotou os britânicos, durante um jantar, aos próprios prisioneiros.

cinco covas no egito3

Fantasiado de vilão, Bramble finge ser manco, torna-se o espião nazista Paul Davos. Torna-se alguém a rastejar, alguém fraco, o criado estranho de Drácula. Dessa forma, e curioso como possa parecer, é mais verdadeiro e interessante.

Wilder trabalha sempre no campo da inversão: sua obra segue no caminho contrário ao típico filme de guerra ao abolir a ação esperada; o suposto romance termina como forma de camaradagem entre homem e mulher; e o vilão, tão malvado, é apenas uma peça a dar vez à manjada fraqueza do poder, intimidador e nada mais.

O cineasta é sempre favorável ao amargor, ainda que seu filme – talvez pela imposição do momento – termine com sinais de esperança, com o herói – de novo como Bramble – rumo à vitória, após fingir ser um espião alemão para ser um espião de verdade.

Nota: ★★★☆☆

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s