O Homem Irracional, de Woody Allen

O professor de filosofia Abe (Joaquin Phoenix) sofre com locais fechados. Ranzinza, fechado em si mesmo, ele ainda não encontrou a razão para viver. O pensamento, ele constata a certa altura, foi incapaz de preencher o vazio de sua existência.

A alternância entre locais fechados e abertos, em O Homem Irracional, de Woody Allen, dá ideia do conflito entre agir e pensar, entre o que faz a vida ter sentido e o que parece não sair do lugar, o que prende a personagem central.

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Mas é por sua forma de pensar – não exatamente a de agir – que ele chama a atenção de sua aluna mais aplicada, Jill (Emma Stone). A paixão da moça por ele dá-se primeiro pelas palavras, antes mesmo de conhecê-lo.

Mais do que seu simples namorado, engomado e certinho, ela precisa de alguém como Abe: alguém que não se importe em deixar a barriga saliente, que tem ideias aparentemente estranhas sobre o sentido da vida – ou sobre sua falta de sentido.

O conhecimento pode parecer algo apaixonante quando observado, quando sentido pelo outro. Jill sofre esse problema: a aparente complexidade de Abe e seu estranho jeito deslocado fazem com que pareça o mais interessante dos homens.

Por acaso, após ouvir a conversa de quatro pessoas em uma lanchonete, Abe é iluminado: ele descobre ter encontrado sua razão para viver.

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Ele descobre a ação fundamental: o assassinato de um homem que não conhece, alguém que pode matar e talvez não sentir remorso em um mundo aparentemente sem sentido senão pela capacidade das personagens em encaixar as peças lentamente.

E é nesse ponto que entra a consciência de Allen sobre a ficção, sobre como seu filme precisa lentamente se distanciar da realidade, o que explica cada detalhe, cada pequena personagem, como se a vida só tivesse sentido na ficção.

Ao matar um homem que não conhece, um poderoso juiz que estaria prejudicando a vida de uma mulher inocente, Abe possibilita que os outros – todos: a mídia, as pessoas de todas as partes daquela cidade pacata – especulem sem parar.

Em suma, possibilita a chegada ao crime quase perfeito, enquanto todos os outros não param de preencher o caso de assassinato com possibilidades. Eles criam histórias. Quem teria matado o juiz? Como isso teria sido feito? Como o veneno teria sido colocado em seu copo de suco sem que ele percebesse, enquanto lia o jornal?

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Ao contrário de Ponto Final, são as pessoas ao lado do assassino que levantam questões, não os policiais. São as pessoas que vivem com Abe – a começar por Jill – que questionam a possibilidade de o professor ter cometido aquele crime.

Ao mesmo tempo, Abe representa o assassino menos provável e o principal suspeito. A certa altura, outro homem é preso pelo crime. A Justiça precisa ser feita a qualquer custo, pelo menos aos olhos de uma sociedade que não para de se questionar.

De novo, Allen bebe na fonte de Dostoievski e seu Crime e Castigo, sobre a tentativa de tornar o crime uma saída racional, possível a um mundo sem sentido.

As salas fechadas que tanto sufocam Abe são como sua própria filosofia: não o deixam escapar, só o fazem sofrer mais. Ele questiona-se sem parar: fala do nazismo, da influência e necessidade da mentira, da impossibilidade, talvez, da vida presa a uma estreita linha moral. O excesso de racionalidade leva-o justamente ao oposto.

(Irrational Man, Woody Allen, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Interiores, de Woody Allen
As mulheres de Woody Allen

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