O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho

O cinema é um sinal quase imperceptível de sensibilidade em O Último Cine Drive-in. Está ao fundo, quase a desaparecer na tela branca do sobrevivente cinema drive-in, em Brasília, cidade em que os sinais embrutecedores parecem mais fortes.

É assim já na abertura da obra de Iberê Carvalho: a partir do vidro da porta do hospital, o espectador percebe a discussão de um rapaz com dois seguranças. Ele deseja entrar, passar a noite com a mãe hospitalizada, mas é impedido pelos funcionários.

o último cine drive-in

Termina sozinho, vaga por ruas e avenidas. Vai dar, não à toa, naquele cinema drive-in. O local, que sobrevive com dificuldade, com alguns poucos carros por noite, é o que une pai e filho no belo O Último Cine Drive-in.

Sem a mãe, resta o pai a Marlombrando (Breno Nina). Como os cartazes de alguns filmes famosos, como a imagem de outros na grande tela, o nome do protagonista logo remete a algo perdido no tempo: o nome de um grande astro, um dos maiores.

Tudo é meio perdido, quase artificial. A cidade ajuda a dar o tom: meio futurista, meio árida, terra estranha que une passado e futuro. Quando algum carro moderno entra no drive-in, de noite ou de dia, logo se percebe o encontro de tempos, e sua estranheza.

O pai de Marlombrando é um lutador, como são todos os que ainda insistem no velho mundo do cinema, da película, dos antigos projetores. Sobretudo, no tipo de cultura popular que une pessoas, com doses de sensibilidade em oposição ao mundo real.

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O pai é Almeida (Othon Bastos), com plena noção da realidade e suas agruras. É uma característica de todos em cena no filme de Carvalho: eles compreendem os problemas para fora daquele cinema drive-in, ou mesmo para dentro.

A chata realidade também invade o local, que corre o risco de fechar, que, como a mãe de Marlombrando, está em seus últimos dias, presa à cama do hospital. Não por acaso, o cinema reflete-a, ao fim, naquela que pode ser a última sessão a céu aberto.

A realidade é insistente: pode ser vista nos pacientes acamados, pelos corredores do hospital, e pode ser vista nos políticos acusados de corrupção, nos seguranças truculentos, na oficina mecânica que guarda um bar em seu interior.

Resumo da obra: a cachaça tomada entre o som do aperto do parafuso, da perfuração do ferro. É a cidade que impõe seus sinais estampados na tela branca do cinema.

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E este, em exercício de imaginação, também estampa a realidade. Os cartazes ao fundo fazem viajar em velhas histórias: nas macas de hospital, com seus pacientes sofrendo, em As Invasões Bárbaras; na cidade suja confrontada pelo “justiceiro” Travis em Taxi Driver; ou mesmo no fim do cinema popular em Cinema Paradiso, de Tornatore, referência óbvia a O Último Cine Drive-in.

Na tela, é possível ver, de passagem, uma bela cena de Central do Brasil. Depois, outra de Na Mira da Morte, de Bogdanovich, cuja última sequência passa-se justamente em um cinema drive-in, no qual o assassino é perseguido e encurralado.

Cinema e vida encontram-se na obra de Carvalho. Tristemente, a vida é mais forte, ou mais chata. Sempre presente, ainda que o espectador – sintetizado na imagem do pai e do filho, também na da mãe enferma – lute para resistir, com olhos pregados na tela.

Nota: ★★★☆☆

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