Chantal Akerman (1950-2015)

Era uma das grandes cineastas contemporâneas, uma intérprete singular, e frequentemente sublime, de uma ideia de modernidade cinematográfica. Era “filha” do casamento entre a Nouvelle Vague – como disse centos de vezes, a vocação despertou-se-lhe, tinha ela 15 anos, quando viu o Pierrot le Fou de Godard – e a vanguarda americana, os Warhols, Mekas, Brakhages e etc. que conheceu de perto quando, ainda novinha, no princípio dos anos 1970, foi apanhar a cauda da então fervilhante cena artística nova-iorquina.

Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema, no site Público (leia aqui o texto completo).

1975 se tornaria um ano capital para o cinema. A estética do blockbuster começava a tomar forma. Não demoraria para os filmes de verão se tornarem, praticamente, produtos do ano inteiro, com suas câmeras inquietas, montagens aceleradas e picotadas, efeitos especiais bombásticos, músicas tonitruantes e infantilização. O cinema ficaria explosivo, cada vez mais reduzido – salvaguardadas as honrosas exceções de sempre – a uma máquina de produzir sensações superficiais reduzidas à visceralidade do imediatismo à flor da pele, com pouco espaço de comunicação com a razão geradora do pensamento. O cinema como arte do olhar desvendado pela racionalidade analítica – algo que os grandes mestres egressos do cinema silencioso ou seus atentos discípulos levaram décadas para firmar e daí engendrar o conceito de “arte cinematográfica” – começava a se transformar em outra coisa e, logo, a não fazer sentido. Pois Chantal Akerman, em 1975, parecendo dotada de uma inusitada capacidade de premonição, fez de Jeanne Dielman um filme-manifesto. É como se a ela fosse dada a missão de reconduzir o cinema aos trilhos e, com isso, devolver ao espectador sem medo de experimentos e vanguardas a possibilidade e o tempo de ver, de examinar o plano em sua arquitetura, de conferir os elementos em cena, de acompanhar o trabalho de uma atriz em estado de graça – Delphine Seyrig (a musa de Alain Resnais, vista em O Ano Passado em Mariembad / L’année dernière à Marienbad / 1961 e Muriel / Muriel ou Le temps d’un retour / 1963) no pleno domínio daquilo a que chamamos contenção, como senhora absoluta de seus movimentos.

José Eugenio Guimarães, cientista social (leia aqui o texto completo). Abaixo, Delphine Seyrig em cena no extraordinário Jeanne Dielman, de 1975.

Jeanne

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