Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock

O velho ladrão não gosta de ser chamado de “gato”. O velho apelido revive seu passado, tempos difíceis e anteriores à guerra. Mas talvez ele não tenha mudado tanto. Ou talvez seus crimes não caibam mais no mundo limpo, ao sol, de gente rica e paz.

O tempo de Ladrão de Casaca leva todos a desconfiar de John Robie (Cary Grant), o “gato”: como aparentemente não há outro de sua espécie, ele é sempre o suspeito de sempre. Por isso, segue negando a autoria dos crimes.

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Uma bela francesa, filha de outro velho ladrão, insiste que ele é o responsável pelos furtos de algumas joias. Sua identidade é fácil: outra mulher que surge em sua vida, interpretada por Grace Kelly, também não será enganada e logo reconhece o ladrão.

Nesse estranho mundo pós-guerra, Robie não pode deixar de ser ele próprio, e talvez seja este seu grande trunfo. Nesse novo mundo de tranquilidade abalada, a agência de seguros responsável pelas joias das vítimas ricas precisa recorrer justamente ao ladrão para tentar solucionar os crimes.

Ao mesmo tempo problema e solução, Robie é tragado ao vai e vem do “gato”, dele ou de qualquer outro que utilize seus métodos, que faça reviver o velho homem.

Grant faz o que sabe bem: entrega ao público a maravilhosa caracterização da personagem perdida mas consciente, ao mesmo tempo abobalhada e esperta demais, o que retorna em Intriga Internacional, com o homem que precisa provar inocência.

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E Alfred Hitchcock faz do filme pura diversão, sem levá-lo a sério por completo – ao contrário de Um Corpo que Cai ou Marnie. Explora essa brincadeira com o gato, o animal de verdade, que vem e vai sobre o telhado, na abertura, enquanto o criminoso age de quarto em quarto.

Os sinais do poder do cinema não param por aí: a certa altura, Hitchcock mostra um garçom manco que deixa a champanhe escapar para fora da garrafa (como se ejaculasse) e, depois, faz um paralelo entre imagens do casal central e dos fogos de artifício.

Contra a malícia de Grant, à moda antiga, está a sofisticação de Kelly, a bela menina solteira sob a saia da mãe, também sob sua influência – que lhe indica os próprios desejos ao dizer que não deixaria um homem como Robie passar.

Por sinal, Frances Stevens (Kelly) surpreende: quando menos se imagina, avança e beija o herói. Depois fecha a porta e desaparece até o dia seguinte. E ele, segundo a brincadeira de Hitchcock, até certa altura não se mostra atraído pela musa.

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Nesse novo mundo supostamente pacífico, os homens lutam mais para salvar a identidade, ou para se livrar dela, e menos para saltar de cama em cama. Pois o mundo de Robie mudou: agora ele é suspeito até que prove o contrário.

Ele deverá voltar a escalar telhados e, por isso, é fonte de atração à bela menina rica: é diferente daqueles que precisam de fantasias, o que remete aos momentos finais. A malícia de Robie é dizer a verdade, é ser ele próprio.

E a menina, por sua vez, está disposta a acompanhá-lo nessas aventuras e diversões – a exemplo da personagem de Kelly em Janela Indiscreta, decidida a provar seu amor e, para isso, colocar a vida em risco ao invadir o apartamento do assassino.

O diretor adora personagens atrevidas. Faz de suas belas a imagem impossível, ou quase, pois parece impensável ver Kelly – uma das mulheres mais lindas do mundo, intocada, ou, como diria Truffaut, “hierática” – disposta àquilo. Nem vale questionar a profundidade do amor. O que vale mesmo é a diversão.

Nota: ★★★★☆

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