A Trilogia do Ser Humano, de Roy Andersson

Situações impensáveis dão o tom surreal da chamada Trilogia do Ser Humano, do diretor sueco Roy Andersson. Suas personagens – a maioria de passagem – estão sempre envolvidas em estranhos dilemas, entre absurdo, graça e tragédia.

O diretor nunca se rende por completo à aleatoriedade. Ao contrário, sabe o que deseja criticar, sabe seus caminhos – mesmo quando os três filmes mais parecem uma junção monstruosa de pequenas situações sobre o ser humano ridicularizado.

canções do segundo andar

Ao que parece, em Canções do Segundo Andar, Vocês, os Vivos e Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência a aparente falta de sentido é o que o define melhor: é da subversão da atitude esperada que brota algo verdadeiro.

Paradoxal, por isso, também forte e inesquecível. O que ajuda a conferir o suposto realismo é o uso incessante da profundidade de campo. Suas imagens ao mesmo tempo se propõem a tudo revelar, ao mesmo tempo não escapam à falsidade.

No primeiro, Canções do Segundo Andar, Andersson explora o absurdo do mundo materialista e do poder. A cidade retratada está paralisada, os carros não andam. Um homem queixa-se que andou muito, que precisa chegar à homenagem a um militar e, ao tomar um táxi para tentar ser mais rápido, vê-se preso ao mesmo lugar.

O absurdo da trilogia de Andersson vai sendo sintetizado a cada pequena parte: explora seres imobilizados, cheios de sonhos, massacrados por coisas menores ou maiores, cercados por fantasmas perseguidores e que às vezes dividem histórias em um só plano.

canções do segundo andar2

O tal militar homenageado é velho e senil, o homem mais poderoso entre todos, dono de milhares de metros quadrados de terra – mas preso a uma cama com cerca de metal.

A ironia não para por aí: quando os outros militares entram na sala para lhe prestar homenagem, a única coisa que ele consegue fazer é retornar ao nazismo: levanta o braço como se saudasse Hitler, com adoração cega e automática.

O filme termina com um homem em meio a um amontoado de crucifixos, enquanto fantasmas, ao fundo, vêm em sua direção. Entre eles, o espírito de uma menina com os olhos vendados, oferecida como sacrifício em outra sequência, a mais forte do filme e talvez da trilogia, quando é lançada a um desfiladeiro.

O cineasta celebra assim o fim da pureza. Vive-se sob os sinais do deus mercado, o sinal da religião nesse mundo moderno – no qual os engravatados golpeiam-se com chibatas e consultam a bola de cristal para saber o futuro.

vocês os vivos

Vocês, os Vivos segue com as amostras delirantes de Andersson, com os lamentos de pessoas diferentes, com imobilismo e, claro, com sonho. Começa com o barulho do trem, com o homem que acaba de acordar; termina com os aviões que sobrevoam a cidade, observados pelas personagens e talvez destinados ao bombardeio.

Se em Canções do Segundo Andar o poeta enlouquece ao fazer poesia e o mágico não pode terminar seu truque sem machucar a cobaia, a obra seguinte expõe o homem que, em sonho, é exterminado na cadeira elétrica – enquanto o público come pipoca – após não conseguir cumprir um truque: retirar a toalha de mesa sem derrubar os talheres.

Há também a menina que sonha em se casar com um guitarrista, na típica pequena casa convertida em trem, com o público do lado de fora, na janela, a saldar a felicidade que só pode ser sonho: o que é simples e belo, e que não perde o movimento.

Essa beleza simples, menos real na estética do que nos pequenos sinais, retorna na terceira e talvez melhor parte da série de Anderson. Um Pombo Pousou fecha esse mundo de absurdos com outras pequenas histórias e o caminhar de dois vendedores.

um pombo pousou sobre o galho

Eles carregam produtos para festas de aniversário: uma máscara, um saco de risadas e dentaduras de vampiro. Devido à ausência do riso, argumentam que o mundo ao redor precisa de alegria. Terminam como o poeta: não encontram espaço.

Um Pombo Pousou é como os anteriores: às vezes à beira do banal, cheio de desconforto. Começa com três mortes: a morte direta, o enfarte; a morte que não chega, a da senhora que se agarra ao tesouro cobiçado pelos filhos; e a morte que revela o pior dos outros, quando as pessoas não sabem o que fazer com a refeição do morto.

A série relata os dramas menores aos quais todos estão condicionados: a humanidade como uma junção de absurdos, explorados em grandes espaços, ou simplesmente a ilusão de grandeza a partir da câmera que quase nunca se movimenta.

um pombo pousou sobre o galho2

As brincadeiras do diretor escondem um terreno frio, às vezes à beira do terror, com seus corredores estranhos, com suas personagens de rostos brancos (talvez mortas), como se toda a vida se resumisse à reflexão do passado, em algo que se perdeu, o que faz pensar em outro filme de Andersson, Giliap, seu fracasso lançado em 1975.

Parte dessa obra o embrião da trilogia, como se as personagens explicassem mais sobre a existência quando caladas, quando impossibilitadas de mostrar sentimentos, enquanto tentam escapar de um hotel e nem sempre conseguem.

Na pequena grande trilogia de Andersson, é o pombo que assiste à humanidade, não se sabe em que estado, com todos os seres (atores) como parte do mesmo espaço, de passagem por pequenas e estranhas histórias da vida cotidiana.

Notas:
Canções do Segundo Andar: ★★★★☆
Vocês, os Vivos: ★★★☆☆
Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência: ★★★★☆

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