Procurando Sugar Man, de Malik Bendjelloul

Não fosse verdadeira, a história de Sixto Rodriguez seria inverossímil. Dá para compreender. Músico com dois álbuns gravados nos Estados Unidos, ele terminou esquecido em sua nação e, sem se dar conta, transformou-se em grande sucesso na África do Sul, em plena época do regime de apartheid.

Essa trajetória curiosa – da lenda que caminhava entre sombras, que teria se suicidado ao colocar fogo no próprio corpo, ao homem pacato em sua pequena casa em Detroit, onde ainda vive – é contada em Procurando Sugar Man, de Malik Bendjelloul.

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No início, o mito, o homem que talvez tenha desaparecido. A começar pelo título, o documentário de Bendjelloul não esconde o mistério. Não vale revelar que Sixto está vivo, mas essa revelação não faz a obra perder fôlego.

A primeira parte é sobre a lenda que, a certa altura, o espectador acreditará inalcançável. O cantor de letras fortes em tom quase sempre leve seria descoberto e faria sucesso em outro continente. A segunda parte é sobre seu retorno.

O trabalho de Bendjelloul envolve os estranhos caminhos da sociedade do espetáculo, como se vê na irônica imagem de Sixto, mais velho, em sua casa em Detroit: no fundo, o sucesso não parece ter feito nada senão dizer que seria ouvido, e fazê-lo sorrir.

Não precisou desfrutar do dinheiro. O lucro com os discos vendidos na África do Sul tampouco é explicado. Provável que Sixto fosse indiferente a tudo isso. Quando o cineasta questiona-lhe sobre o sucesso, ele não escapa ao simplismo.

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Até a metade do filme, o mito parece ser maior que o homem – e o homem, a quem não conhece a história, parece ter se perdido. Não é difícil crer que tenha se suicidado quando se trata da indústria da música e sua cobrança por sucesso.

Depois, com a reaparição, o homem torna-se mais importante. Sixto não precisa se esforçar para parecer um pouco despreocupado com o rumo da vida: as imagens que o mostram caminhando entre a neve, na Detroit sem sol, fazem isso pelo músico.

Da América salta-se à África ao sol, aos homens que endeusam o artista. Nasce uma verdadeira investigação. Ele é encontrado e parte para a África do Sul, em 1998, na companhia das duas filhas, com recepção à altura de um Elvis Presley.

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E há quem garanta que tenha feito mais sucesso que Elvis no país de Nelson Mandela. Volta então às apresentações, quando muita gente ainda duvidava se tratar de Sixto. No palco, canta “I Wonder”, e o público vai ao delírio. O concerto está lotado.

Parte dessas imagens é de gravações amadoras, o que só ajuda a reafirmar a distância – sem ser proposital, mas importante ao resultado do filme. Como o público que talvez não acreditasse na presença de Sixto e procurava encontrar sua imagem no palco e entre luzes, o espectador procura por sua forma, como se esta lhe escapasse.

É, enfim, o mesmo homem: simples, suave, feliz, de emoções contidas, como sua música não deixa mentir. Melhor não ser invadido, compreende o documentarista.

Nota: ★★★☆☆

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