Manon – Anjo Perverso, de Henri-Georges Clouzot

A mulher não se deixa decifrar. O homem, ao contrário, não esconde quase nada em Manon – Anjo Perverso, de Henri-Georges Clouzot: é alguém apaixonado. Adicionada a essa diferença está a época, o pós-guerra, com miséria por todos os cantos.

E Clouzot, após a história da guerra, após uma viagem de navio, após um crime e outros problemas, ainda encontra tempo para lançar os amantes no deserto, ao fim. Ou seja, em outra miséria. O drama do filme retorna: o amor só leva ao pior.

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Os amantes, Manon e Robert, encontram-se nos dias finais da ocupação alemã nas França. Ele luta pelas tropas francesas, com apoio americano, e ela é acusada de colaboracionismo. Na verdade, descobrirá o espectador, ela estava alheia à questão política: queria apenas dançar com alguns homens de farda, levar uns trocados.

Manon, interpretada por Cécile Aubry, vive sob o efeito dessa cegueira, levada pelos sonhos e pelo desejo de recomeçar: quer bastante dinheiro, estar em festas, dançar a noite toda, vestir roupas caras. Quer a vida que o amor dos tempos do pós-guerra não podem lhe proporcionar. Fica entre o amor ao mundo e o amor ao homem.

Do outro lado, o ator Michel Auclair, como Robert, não esconde ser movido pelas emoções e não aceita o caminho mais fácil. É fraco, sim, ao contrário dela: é o mesmo homem com a metralhadora em mãos ou a companheira ao lado.

Quando Manon é detida pelos franceses e colocada sob o olhar de Robert, ele termina apaixonado pela prisioneira, e se deixa entregar com facilidade. A paixão súbita é um dos pontos baixos da obra de Clouzot. Será assim o tempo todo: tudo rápido e intenso, cada escapada e mudança do casal como se fossem as últimas.

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Há sempre peso nesse amor, com frases de efeito, textos que correrão pela mente do rapaz, ao fim, enquanto carrega um cadáver, ainda apaixonado.

Amor louco, que o consome a ponto de aceitar ser um criminoso para estar com a companheira. Tal história foi contada inúmeras vezes. A diferença é que Clouzot sequer se preocupa em dar mais cinismo à situação. Sua Manon é difícil de definir. Parece malvada e se altera com rapidez.

Nos belos bordéis que não eram tratados como bordéis, Manon será vista como uma “criança”. Isso explica seu fascínio: nunca parece capaz de fazer o que faz, não poderia ser mais que um anjo perverso sem deixar ver sua carne. E deixa.

Quando seu seio quase aparece, ao fim, enquanto é carregada por Robert, não é difícil imaginar que seu encanto acabou: o que ela tinha de proibido está entregue, ou quase. Ela está morta, para a satisfação do homem, que agora pode tê-la com exclusividade.

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Ainda sobre a cena do bordel, um velho homem deixa o local e esbarra em Robert ao sair. Fica bravo ao perceber que há mais pessoas por ali, clama por mais discrição. Impera o silêncio, o bom comportamento, em contraponto às ruas sujas e toda a miséria. Nem mesmo a cafetina chamará o local de bordel.

Essas mutações sintetizam o espírito de Manon, a personagem, contra a face de seu companheiro imutável. Clouzot consegue grandes sequências enquanto o casal foge e tenta sobreviver – entre bombas, entre a multidão no trem, entre a areia do deserto.

O amor resiste à guerra e à miséria, o que pode parecer inocência de Clouzot, a partir da obra de Abbé Prévost. Nesse meio, Manon desestabiliza o companheiro, e talvez seja mais carnal do que parece. Ele, sofrido, está destinado a carregá-la, viva ou morta.

Nota: ★★★★☆

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