Gemma Bovery, de Anne Fontaine

O diário de Gemma tem trechos borrados pelas lágrimas. Ela chorou em alguns momentos, enquanto o escrevia. Essa é talvez a desculpa do leitor, protagonista de Gemma Bovery, para recriar o caso de amor e fazer parte da história.

Ou, como em Madame Bovary, dar vida à história de uma mulher que rejeita a banalidade: as passagens que mostram como ela, Bovery ou Bovary, tentava se entregar ao amor para encontrar uma saída, para ser livre de sua vida enfadonha.

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O filme de Anne Fontaine, a partir do livro de Posy Simmonds, brinca com a clássica história de Flaubert. A saída é dar destaque ao observador, padeiro mais velho que toma ares de escritor, que assume a autoria de uma história que corre em sua vizinhança.

Sua vida muda quando Gemma (Gemma Arterton) muda-se para o local, a casa ao lado, na companhia do marido, o restaurador de obras de arte Charlie (Jason Flemyng). O casamento vai bem até certa altura. O protagonista, Martin (Fabrice Luchini), começa então a acrescentar detalhes, curvas: vê Bovary em Bovery.

Toda a história, portanto, pode ser apenas fruto da criatividade de Martin. Talvez por ser para ele o modelo de mulher, Gemma e sua vida não podem escapar aos contornos de Flaubert: a maneira como o mestre faz do banal algo genial.

Para tanto, clama Martin, é importante invadir as curvas de Gemma, ou aquela vida que merece a cereja do bolo, detalhes, humanidade e mesmo fraqueza. Nem sempre é possível entender alguém como ela, enquanto, distante, sua normalidade incomoda homens como Martin, imaginativos e sofredores, legados ao papel do vizinho.

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Questionável se Gemma realmente esteve na padaria de Martin, se tocou o pão da forma como é mostrado ou mesmo se, com as mãos tomadas pela farinha, tocou os cabelos, relevando ao narrador e observador seu pescoço.

Mais tarde, quando descobre – ou imagina, em suas incursões – a traição de Gemma, é ao pescoço dela que o olhar de Martin retorna. Durante um jantar entre amigos, no qual está sua esposa e o marido da personagem-título, ele vê uma marca no pescoço de Gemma. Talvez seja esse o material de seu desejo: ela é, afinal, feita de carne.

O criador reluta em dar um fim trágico a seu objeto de desejo – diferente do que fez Flaubert com sua personagem. Não quer que ela tenha venenos para matar ratos em sua casa. No entanto, ratos sempre correm por ali, pelo chão velho, próximos às paredes rachados, no ambiente em que a própria Gemma serve de contraponto, bela e jovem.

Nasceu para sufocar homens como Martin. Em caminhada pelas redondezas, em local ermo, ele sempre acaba encontrando essa mulher. Ela – em sua imaginação, o que é mais provável – sempre retorna a ele em carne. Pede que o mesmo chupe o veneno de uma abelha que picou suas costas, a certa altura, em momento que beira o absurdo.

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E momentos assim, com erotismo bobo, prenunciam a dificuldade de o criador Martin invadir o íntimo da mulher: com sua imaginação fértil, ele ainda prefere o terreno dos grandes mestres como Flaubert, prefere vê-la nos braços de homens mais jovens, belos, homens capazes de oferecer a Gemma a desejada libertação.

Martin não pode. Põe-se a distância, em sua vida medíocre com mulher e filho, em sua rotina de tranquilidade na padaria, enquanto palavras do mesmo Flaubert atacam-lhe como farinha sobre a pele – como se a arte, para ele, estivesse no menor detalhe cotidiano. Depende apenas da imaginação do criador.

Nota: ★★★☆☆

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