Casadentro, de Joanna Lombardi Pollarolo

As personagens, pelos espaços da antiga casa, encontram dificuldades para se relacionar: há sempre algo automático na relação entre todas, e, aos poucos, os pequenos dramas tomam forma em Casadentro.

A obra da cineasta Joanna Lombardi Pollarolo pede paciência e não tem a ambição de explicar suas personagens. O que é possível dizer sobre elas com tão pouco? Ao mesmo tempo, gente comum e única, em uma história que parece reproduzir coisa alguma, “mas termina abraçando tudo”, como pontua o crítico Luiz Carlos Merten.

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Essa “coisa alguma” tem beleza rara: cada plano explora o espaço, faz das personagens menores frente à grande casa antiga de móveis rústicos, de detalhes escuros, com suas janelas contra a luz de fora, de silêncios contra o som da cadela Tuna.

A história simples inclui a véspera do aniversário da senhora Pilar (Élide Brero), mulher silenciosa, cuja principal companheira é a cadela. O animal, por sua vez, será o principal sinal de vida desse filme singular, aparentemente rarefeito.

Em sua cama, Pilar alimenta Tuna. O tempo quase não passa. O espectador sente-o, o que sempre pode representar perigo aos pouco acostumados com a proposta da cineasta: a necessidade de captar o tempo, em um dia como outro, ainda assim decisivo.

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Pilar, ao telefone, é informada que receberá a visita da filha, da neta e da pequena bisneta. Diferentes gerações de mulheres encontram-se nessa grande casa como representação do passado que ainda se mantém, de silêncio que não resiste.

Com paciência, o espectador embarca nesses contornos: Pilar talvez não esteja atenta ao drama da filha e da neta, talvez a conexão entre todos – com Pilar ao centro e ao mesmo tempo à deriva – não seja a melhor possível. Para evitar atritos resta o silêncio.

E, pela câmera de Pollarolo, os planos fixos, sem cortes dentro do mesmo espaço, mostram locais maiores do que realmente são. As personagens percorrem salas, quartos e jardins na tentativa de convivência. Apenas o espectador sabe tudo.

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A posição de cúmplice chega a incomodar, existe para isso. É o caso da situação da criada, ao telefone ou no celular na ausência dos outros, com outra vida paralela. Ao sair, à noite, ela tem dificuldades para abrir o portão, para encontrar a chave correta – representação dessa difícil relação com a casa, com outra classe.

Há um jogo silencioso que, como a água da geladeira, na sequência de abertura, transborda: a neta que não consegue dar leite à filha pequena e se sente cobrada, a filha que questiona Pilar sobre sua amamentação quando jovem, e a velha senhora cujas marcas da pele emitem outra história, e que esconde sensibilidade.

Com a história não vista e o fora-de-campo, sobra mistério em Casadentro. O espectador precisa imaginar, colocar um pouco: a grande casa, apesar da aparência de que tudo está entregue, aprisiona. Em cena, o jogo do cinema: ver pouco para ver tudo.

(Idem, Joanna Lombardi Pollarolo, 2013)

Nota: ★★★★☆

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