Quando Chega a Escuridão, de Kathryn Bigelow

Os vampiros de Quando Chega a Escuridão, de Kathryn Bigelow, não possuem dentes pontudos, não se assustam com alho, tampouco morrem com estacas no coração. Não há cruzes nesse filme original e violento. Eles sequer são chamados de vampiro.

À primeira vista, parece um faroeste com toques futuristas, de seres imundos cujo único objetivo é procurar por vítimas, por sangue. Do lado oposto ao caos está a imagem da ordem: a família do protagonista, o rapaz que termina mordido.

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Bigelow investe em um clima sombrio, com sequências feitas na aurora ou no crepúsculo, como se o sol representasse sempre perigo – aos vampiros e humanos. A certa altura, o espectador começa a torcer pela noite, chega a acreditar em sua beleza.

A noite é sempre excitante: é sob seus efeitos que a garota vampira deixa o rapaz sugar o sangue de seu braço, enquanto, ao fundo, vê-se a grande estaca de extração de petróleo, que remete ao sexo. A noite deixa esses seres à deriva, esconde as famílias, tem caminhoneiros piadistas e moças dispostas a se aventurar.

O protagonista é Caleb (Adrian Pasdar), jovem caubói que se encanta, certa noite e ao acaso, pela bela Mae (Jenny Wright). De rosto branco como a neve, estranha e distante, ela ainda assim deixa se aproximar. Após a fuga de seu cavalo assustado, o rapaz laça a garota. Ambos terminam à estrada, perto do amanhecer, aos beijos.

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Ela morde o rapaz, foge. O resto poderia ser fácil de prever, mas o filme de Bigelow provoca alguns choques e deixa dúvidas: os vampiros são malvados e, por outro lado, nada podem fazer senão conviver com seus instintos: para viver, não há outro caminho senão o da matança, noite após noite, incessantemente.

São, ao que parece, uma gangue, ou mesmo uma família. O fato de terem esquecido como é viver sob a luz do sol indica o oposto: são feitos do material contrário à ordem, com sua luz e crianças ingênuas, com seus homens honestos.

Os vampiros de Bigelow são marginais: antes de liberarem o instinto, brincam, deixam evidente a diversão. Mostram autoridade contra os humanos e são únicos: durante o filme, não falam de outros vampiros, como se tal universo fosse limitado às suas próprias formas. Dão de ombros aos sinais de humanismo, encarnam o terror.

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Ainda assim, o estranho flerte com o real – mesmo metafórico – emite o que a obra tem de mais forte, além de buscar signos de gêneros consagrados. O jovem caubói cavalga pelo asfalto com as formas de um gênero passado, o faroeste, para confrontar criaturas que não envelhecem: não são velhos ou novos, ou são os dois.

O sangue alimenta e salva. Caleb vive entre a ordem e o instinto, entre as regras do pai e da pequena irmã (sua família à moda antiga) e a libertinagem da garota que oferece seu sangue para alimentá-lo, para seguir pela noite em baladas e matanças.

Filme moderno, estranho, no qual a luz do sol, em momentos, surge rápida e, por isso, mais parece defeito de realização. Ainda assim, Bigelow e sua equipe são facilmente perdoadas. A grandeza da obra está na maneira como a diretora faz o público trafegar entre lados – entre luz e escuridão – sem que seja fácil amar ou odiar qualquer um deles.

Nota: ★★★★☆

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