O Homem da Máfia, de Andrew Dominik

Os mafiosos conversam como políticos e empresários: o tom não chega à agressividade, como se ainda guardassem alguns sentimentos. Ou, enquanto negociam, apenas imprimem o jeito tipicamente empreendedor, de que é importante “pegar leve”.

Nesse caso, em O Homem da Máfia, trata-se de “pegar leve” com o homem que teria cometido um erro e colocado todo o sistema em descrédito. No filme de Andrew Dominik, o mundo do crime é moldado como outro negócio qualquer: há os chefões, os atravessadores, os pequenos bandidos, os “suspeitos de sempre” e a crise.

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O filme concentra-se no último ponto, em paralelo à crise à qual os Estados Unidos foram lançados no fim de 2008, quando o governo teve de socorrer os bancos e seus papéis podres. A obra de Dominik mostra que há pouca distância entre os lados.

Distância maior, sim, existe entre discursos. Ao fim, quando a personagem de Brad Pitt desnuda a frase de Barack Obama, em seu discurso de posse, a obra chega ao ponto central da tragédia silenciosa: os americanos vivem para os negócios, e as palavras inspiradoras servem apenas de blindagem à aparente amostra de bondade.

Talvez por isso não seja um filme de máfia comum. Tem mais palavras e mais “clima” que tiros e reviravoltas. No fundo, sua aparência complexa esconde o comum: um pequeno filme de seres pequenos e incômodos contra chefes do crime, os incomodados.

Pitt é contratado para fazer a limpeza, o matador de aluguel. Ele deve descobrir os responsáveis por assaltar uma mesa de jogos clandestina escondida em um beco qualquer, cercado pela umidade e escuridão típicas ao filme de Dominik.

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Os dois bandidos estavam a serviço de um terceiro, com uma dica imperdível: o assalto deveria fazer a culpa recair sobre outro homem, cujas credenciais colocavam-no como suspeito número um, já que teria cometido crime semelhante em outra ocasião.

Tudo correria bem não fosse a suposição do especialista interpretado por Pitt, Jackie: um criminoso – por mais idiota que possa ser – não cometeria o mesmo erro duas vezes, sobretudo quando sabe com quem está lidando.

Mas, mesmo sabendo da inocência desse homem, desse “suspeito de sempre”, Jackie nada pode fazer quando a confiança do sistema vê-se abalada. O suspeito, então, é reduzido a nada, a apenas uma peça do sistema – e deve ser morto.

A máfia, enquanto empresa, escancara a face de um país nascido sob a insígnia da igualdade, com seus homens bondosos, suas oportunidades. Nesse sentido, é mais real: ela mata para restabelecer a confiança dos outros, para reciclar seu meio. Como o sistema financeiro quebrado em 2008, ela não aceita outro modelo.

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O caminhar desses criminosos – distantes do suposto mundo real quando apenas reconhecem aquele no qual fincam os pés – dá-se em paralelo aos discursos dos líderes americanos na televisão, os do ex-presidente e do futuro presidente.

Passado e futuro semelhantes, com a impressão de que tudo muda para ser o mesmo – os mafiosos desejam apenas fazer como todos, matando para manter as engrenagens da máquina: suas casas de aposta, seus negócios.

Filme raro, em que a frieza vem antes da bala, em que a travessia da bala, em câmera lenta, apenas serve para salientar a tal matança “suave” da qual Jackie fala – a morte a distância, para não ouvir a vítima, para não se envolver. A distância é a regra para que o sistema continue como sempre foi: impessoal e lucrativo.

Nota: ★★★☆☆

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