Fora de Satã, de Bruno Dumont

A relação do casal ao centro é estranha. Em Fora de Satã, o espectador chega a pensar que se trata de namoro, algo mais sério. A menina deseja o homem ao lado. Com ele, embarca em diferentes caminhadas e crê estar mais próxima de Deus.

Ainda assim, ela deseja alcançar a relação carnal. Ele não quer. Ao longo do filme, o diretor Bruno Dumont deixa a câmera seguir ambos sem que se necessite mais.

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O drama, como em seus filmes anteriores, vai do mínimo ao máximo, do que não pode ser percebido – ou do que parece invisível – a tudo o que explode ali, aos poucos, em silêncio. Nem mesmo a violência parece abalar a quietude.

Há certo terror na história do casal e na maneira como ele tenta alcançar algo divino enquanto comete crimes. No início, ele (David Dewaele) mata o padrasto da companheira. O caso não a abala: a menina (Alexandra Lemâtre) segue como sempre foi, como se o crime do companheiro pudesse ser justificado.

A primeira cilada: o filme não é sobre o crime, sobre policiais em busca de provas, ou sobre o que essa morte pode causar na vida de todos.

O homem é um profeta, operando milagres em diferentes momentos, até mesmo exorcismos. Para provocar o espectador, Dumont aposta no sobrenatural, na possibilidade de transcender o que leva à materialidade, ao registro real do vazio.

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Como em seus outros filmes, nada está isolado: a contradição entre o que parece religioso em suas personagens e o que parece físico em todos os cantos da tela resolve-se tão bem quanto nos filmes de Bresson e seu cinema particular.

Fora de Satã é, para todos os efeitos, um filme religioso revelado aos poucos. Parece, às vezes, drama ou suspense, ou mesmo terror. De difícil definição.

As personagens estão à margem da lei dos homens: em todo o decorrer, elas parecem confiar apenas em Deus, ou no que não podem ver. Em uma sequência curiosa, o homem pede que sua companheira caminhe por uma passagem estreita sobre um lago.

Caso cumpra a travessia, segundo ele, o incêndio que ocorre naquela região estará terminado. Ela aceita o desafio. O momento é semelhante ao caminhar do protagonista de Nostalgia, de Tarkovski, com a vela acesa em meio a um lago artificial e vazio, lutando para que o vento não apague o fogo.

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Essa luta invisível, entre desafios que talvez façam sentido apenas àqueles seres estranhos e silenciosos, traz grande mistério a Fora de Satã.

Religiosos e às vezes ternos, esses seres confundem. A menina, por exemplo, desespera-se quando o homem é obrigado a matar um cervo que agoniza, após ser baleado. O tiro veio de sua arma, e pode não ter sido intencional. A suposta bala perdida mostra o quanto aquele ambiente não está imune às questões inexplicáveis.

Nota: ★★★☆☆

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