Três perguntas sobre Robert Altman

Na Hollywood inclinada à obediência e às regras do jogo, Robert Altman foi um rebelde. Um autor, como se costumava dizer. Da geração da chamada Nova Hollywood, o diretor teve grandes momentos e depois viu o declínio – até retornar em alta, nos anos 90, com obras como Short Cuts – Cenas da Vida.

Altman experimentou diferentes estilos, de filmes considerados próximos a Bergman (Imagens, Três Mulheres) à ficção científica (Quinteto) e mesmo ao monólogo de Secret Honor. Até mesmo seus trabalhos mais atacados e desprezados, como Dr. T e as Mulheres, têm algo de especial – com sua marca inconfundível.

A distribuidora Versátil acaba de colocar no mercado o DVD de O Jogador, além de um digistack com mais três filmes de Altman, A Arte de Robert Altman. E, de quebra, em breve lançará Imagens. Sobre o diretor e sua obra, o curador da Versátil, Fernando Brito, respondeu algumas questões ao blog Palavras de Cinema.

assassinato em gosford park

Qual a importância de Robert Altman ao chamado cinema de autor norte-americano e ao momento da Nova Hollywood?

Robert Altman certamente foi um dos maiores autores do que chamamos de Nova Hollywood, o período de intensa criatividade artística que marcou o cinema americano entre meados dos anos 60 e início dos anos 80, quando jovens realizadores com novas ideias, que revelavam forte influência dos novos cinemas europeus e também do cinema asiático, revitalizaram a produção cinematográfica nos moribundos estúdios de Hollywood. A principal contribuição de Altman está na criação de brilhantes filmes-corais com uma rica sobreposição não só de tramas, diálogos e discursos (atenção ao uso dos jornais e das transmissões de rádio em Renegados até a Última Rajada, por exemplo), como também de gêneros; no trabalho coletivo de criação dramática com os atores no set, com ênfase na valorização da improvisação dos mesmos; no uso político e corrosivo do humor e da sátira social para tecer uma visão crítica e subversiva das questões de seu tempo e de sua sociedade e, por fim, no trabalho de constante movimentação de câmera e na utilização de técnicas inovadoras de filmagem com função dramática, e não como pirotecnia vazia para fascinar os incautos, como vemos com tanta frequência no cinema atual. Aliás, essa supervalorização contemporânea da técnica pela técnica, a “poeira nos olhos” na definição do crítico Inácio Araujo, é satirizada por Altman no longo plano-sequência que abre O Jogador, como o próprio revela em um depoimento no extra do DVD lançado pela Versátil.

Filmes como Nashville e Short Cuts trazem o que se costumou chamar de “cinema painel”, quando várias personagens – às vezes mais de 20 – se esbarram em diferentes situações. Você acredita que essa foi sua principal marca?

Como disse acima, o cinema painel ou filme-coral é, sem dúvida, a característica central da filmografia de Altman. Um princípio estrutural do qual irradiam os outros fios que tecem seus filmes – o humor corrosivo e às vezes anárquico, a mistura de gêneros e a subversão das convenções dos mesmos, o comentário social muito bem marcado, a movimentação constante da câmera, etc. Aliás, vista em conjunto – apesar de seus altos e baixos –, a obra de Altman é muito coerente.

Recentemente, você disse que colocaria Quando os Homens São Homens entre os filmes de sua vida. O que lhe atrai tanto nessa obra?

Acho que é talvez o mais bem-sucedido dos faroestes revisionistas. Altman, em Quando os Homens São Homens (aliás, que título brasileiro horrível!), desconstrói o mais americano dos gêneros, sem a necessidade de ser retórico ou fazer um cinema explicitamente engajado. É um filme a um só tempo poético e áspero no seu retrato às avessas do Velho Oeste e do sonho americano, com seus fracassados, desiludidos e explorados. Além disso, destaco o uso dramático e inteligente da belíssima trilha sonora com músicas do trovador Leonard Cohen, um dos meus cantores e compositores favoritos de todo sempre, e a fotografia deslumbrante de Vilmos Zsigmond, que criou imagens inesquecíveis nesse faroeste nevado em contraposição ao ambiente solar do faroeste tradicional.

Doutor em Literatura Inglesa pela Universidade de São Paulo, Fernando Brito é curador da Versátil Home Vídeo desde 2002, onde teve a felicidade de realizar a curadoria das edições em DVD de vários filmes de Robert Altman, como O Jogador, O Perigoso Adeus, Renegados Até a Última Rajada, Três Mulheres e Imagens (todos lançados em 2015).

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