O Vendedor de Passados, de Lula Buarque de Hollanda

O melhor amigo do protagonista de O Vendedor de Passados é um cirurgião plástico. Isso explica muito sobre o filme de Lula Buarque de Hollanda. O herói da história, o “vendedor”, é Vicente (Lázaro Ramos), que, à sua maneira, também faz cirurgias.

O trabalho de Vicente é cortar, montar, oferecer uma nova imagem ao comprador – e, ao invés da forma futura, vende a passada. Ao invés de cortar na carne, corta nas fotos e nos velhos vídeos: produz álbuns fotográficos e filmes familiares que nunca existiram – e, como em uma rede social, estão cheios de pessoas felizes.

o vendedor de passados

O Vendedor de Passados é mais sobre a atração de um homem às possibilidades da ficção, menos à aparência de realidade – o que o distancia de seus clientes.

Quem paga prefere acreditar no que comprou. É como quem paga para ir ao cinema ver um filme: no fundo, sabe que não passa de mentira, mas ainda assim se deixa levar pelas imagens na tela – chora, comove-se, revolta-se, aplaude.

A vida do “cirurgião de histórias” muda quando uma estranha mulher bate à porta. Ela, a nova cliente, não tem nome. Ele sente-se confrontado: será a primeira vez que terá liberdade total para criar uma história, e a pedido dela.

Ao mesmo tempo em que questiona o poder das imagens, o filme de Hollanda também lança luz sobre a ética desse “cirurgião”, ou do sistema em que tudo está à venda.

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No processo de construção da história da mulher estranha, Vicente dá-lhe um nome. Vivida por Alinne Moraes, Clara começa a ganhar vida. A certa altura, é fotografada por ele e, ao tirar a roupa, deixa aparecer a cicatriz que carrega nas costas.

Como mostra Hollanda, a partir do livro de José Eduardo Agualusa, as marcas da pele também indicam uma história. Isso ajuda Vicente a criar a nova vida da cliente, também a imaginar a velha vida de Clara, e que nunca vem à tona.

Mesmo frio e com um encerramento nada animador, O Vendedor de Passados aborda questões relevantes, a começar pela relação entre criador e criatura, ao passo que o primeiro perde o poder sobre a segunda. É quando a história ganha asas, vida própria.

Nota: ★★★☆☆

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