O Apostador, de Rupert Wyatt

Jogar não é apenas um vício para o professor de literatura Jim Bennett (Mark Wahlberg). Ao lançar suas fichas nas mesas de cartas, ou nas roletas entre o vermelho e o preto, Jim brinca com o próprio acaso, com a sorte.

Ele tenta mostrar – e falará a seus alunos de forma incisiva – como toda a existência é apenas obra do acaso. Nas mesas de jogos, a posição de uma carta pode levar um homem à riqueza ou à desgraça, à dívida, a grandes problemas.

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Em sua primeira aula mostrada em O Apostador, de Rupert Wyatt, Jim discute com os alunos se Shakespeare é o verdadeiro autor de suas obras. Questiona a plateia por que o autor de Hamlet não reivindicaria o direito de sua obra. É mais fácil aceitar a falsificação do que a genialidade e, assim, tentar driblar o acaso.

No início, o protagonista perde o avô. No leito de morte, ele e o velho homem encaram o fim sem ilusões, como parece ser: frio e sem rodeios. Em seguida, com seu carro potente, o professor vai ao cassino jogar. Não pouco, mas muito. Passa a noite no local.

Perde grandes quantias, toma mais dinheiro emprestado. Prefere apostar alto, insiste em se manter no fio da navalha. O dia amanhece com Jim endividado. Deve não a um, mas a dois poderosos mafiosos. O filme acompanha seus tropeços.

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A mãe explosiva e rica (Jessica Lange) aceita pagar sua dívida. No banco, as instruções dos gerentes são semelhantes às dos crupiês das mesas de cartas: a demora em liberar o dinheiro, ou em aceitar a aposta, é uma questão de segurança.

No fundo, o filme de Wyatt toca nesse sistema em que cassinos e bancos trabalham de forma semelhante: ambos fingem pensar na segurança do cliente quando o objetivo é não perder dinheiro. Jim sabe disso e insiste aos crupiês que sigam as regras da casa: todos estão ali para jogar e não há limite para as apostas.

Durante sete dias, ele será pressionado pelos mafiosos a pagar sua dívida. O dinheiro da mãe é usado em outro cassino, em mais um de seus momentos de vício, ou apenas para confirmar como o sistema – ou o azar – joga contra ele, destinado a perder.

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O homem, aqui, deve perder sempre, e talvez não se importe. Ele força o sistema a vê-lo, a enxergar o perigo. Talvez esteja pronto para morrer. Não por acaso, Jim, em outra aula, invoca a personagem central de O Estrangeiro, de Camus.

Um de seus alunos, um jogador de basquete de sucesso, diz não entender o suicídio. Outra aluna, apontada como genial entre a massa medíocre, trabalha no cassino em que Jim joga e faz dívidas. Quando esses alunos correm riscos por sua causa, ele entende que deve ajudá-los e, a exemplo dos vilões, joga para ganhar.

O Apostador não é um filme de máfia ou de golpes fantásticos. Não tem bandidos caricatos, tampouco o típico anti-herói conquistador e de mão leve. Na contramão, mostra como a arte de perder confirma a fraqueza de quase todos ao redor, e como jogar para sair com pouco também reserva charme e algum sentido.

Nota: ★★★☆☆

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