Na Próxima, Acerto no Coração, de Cédric Anger

O assassino é também o policial. Ao mesmo tempo, criminoso e investigador. As duas vidas de Franck Neuhart são interpretações. No fundo, não é uma coisa ou outra. E apenas o espectador terá acesso ao homem indefinido, quase imaginário, recluso, perturbado, que vê minhocas entre terra molhada no vidro de seu carro.

Seus problemas são quase sempre turvos em Na Próxima, Acerto no Coração. A obra, no início, avisa o público sobre a necessidade de preencher lacunas da suposta história real, a partir do caso de um serial killer que matava mulheres na França.

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Ao invés dos crimes ou das investigações, o filme prefere o mergulho no homem escondido e violento, ainda assim amado. Prefere o mundo estranho desse rapaz com contornos de Norman Bates – o que já foi visto em outros assassinos do tipo.

É fácil odiar Neuhart. No início, ele atropela uma garota. Depois, ao voltar para matá-la, não consegue dar o último tiro, seu golpe letal. Envia cartas à polícia, tem contornos de homem letrado, com avisos. Entre eles, o de que, na próxima vez, acertará o coração.

A polícia procura por ele. Sua vantagem é conhecer as engrenagens do sistema, seu próprio rastro. Mas sempre há erros a cometer – pois, como mostrou Elio Petri em seu grande filme dos anos 70, não há cidadão acima de qualquer suspeita.

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Neuhart gosta da excitação. Aproxima-se assim de si mesmo, de seus atos, sempre observando o que os outros pensam de seus próprios crimes. Testa, por sua vez, a lei dos homens: odeia as coisas da terra, a natureza talvez, e sua busca envolve também a religiosidade, a ideia de pureza. Não à toa, flagela-se para escapar do pecado.

No seu apartamento, a imagem de uma bela mulher deixa ver sua própria face, seu jeito de ser: a loura é angelical e, ao mesmo tempo, sexualmente desejável. Entre o assassino e o policial, o diretor Cédric Anger prefere o indefinível, o ser ao meio.

Da frieza brota alguma revelação, nessa dor em ver as minhocas entre a terra, tudo o que parece miserável e desprezível justamente por ser material. Em momento revelador, ele caça pela floresta na companhia do jovem irmão, reina entre a mata.

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Na Próxima, Acerto no Coração traz Guillaume Canet no papel central. De rosto fechado, ele assusta quando deixa ver sua interpretação – o ator sobre outro. Provoca o espectador com jeito estranho e doentio. Faz pensar na muralha intransponível que representa (ao mesmo tempo revelado, ao mesmo tempo oculto) e na posição do espectador (obrigado a acompanhá-lo em sua violência contra mulheres indefesas).

Com clima frio, não é um filme fácil de ver. E chega a certa ironia quando as fraquezas de Neuhart são reveladas, como o momento em que ele e um parceiro policial forjam uma perseguição e são descobertos pelo chefe.

O protagonista sabe que ora ou outra será descoberto. O filme é sobre sua resistência, sobre a luta com tudo o que parece desprezível e lhe provoca dor – incluindo até mesmo o corpo nu da bela mulher em sua cama, sobre o qual pousa uma mosca.

Nota: ★★★☆☆

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