Escola da Carne, de Benoît Jacquot

A fonte do sofrimento de Dominique (Isabelle Huppert) é evidente em Escola da Carne. Difícil é enxergar o que há de atraente no jovem rapaz.

O diretor Benoît Jacquot explora o relacionamento a partir de questões físicas e da aparência do vazio. Para ele, o amor não tem explicação. A mulher mais velha faz de tudo para estar com o garoto: aceita suas saídas, seus casos, suas excentricidades e desejos. Não demora a derramar lágrimas, a explodir o conflito.

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Eles começam com exceções, terminam confirmando a regra: antes, pertenciam a um universo estranho e livre, em que (quase) todas as questões são colocadas às claras; depois, já separados, nos instantes finais, surgem desiludidos e vítimas da vida comum.

Jacquot evita mistérios. A relação é o que parece ser. Se as personagens parecem esconder algo, não significa que essa questão seja vital ao desenrolar da trama. Talvez seja apenas trivial, para não piorar o que já está amargo.

O rapaz é Quentin (Vincent Martinez), que acredita ser capaz de tudo. Vive em ação: treina chutes e socos na academia, trabalha em um bar, envolve-se com homens e mulheres, tem ar de disposição constante enquanto mantém distância.

O bar no qual trabalha é frequentado por “todo tipo de gente”, como explica a amiga de Dominique. Talvez a mulher endinheirada, a protagonista, deseje mesmo esse outro tipo de pessoa. Quentin ajuda a sintetizar suas buscas e desejos: ele não liga para o mundo ao redor, ou apenas finge ignorá-lo enquanto retira seu necessário.

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A certa altura, ainda será capaz de renunciar ao conforto da companheira para ir à rua e ganhar dinheiro com sexo pago. Ela vai atrás dele, faz o possível para “socializá-lo”, mesmo enquanto ele parece – com as belas roupas compradas por ela – suficientemente “socializado” entre ricos e influentes, em festas chiques.

Ele pode estar entre qualquer um. E talvez seja o mistério desse filme direto: o rapaz transforma-se de acordo com as necessidades. É quase sempre indelicado, bruto, como se isso o ajudasse a ser desejado, a sustentar sua personagem.

Ao vê-lo, sabe-se que Dominique não pode resistir. Flertam a distância. No bar, ela conhece um colega de Quentin, Chris (Vincent Lindon), que se veste de mulher e, ao fingir ser o amigo possível, está disposto a ganhar dinheiro dando informações.

Levada pela paixão, ou apenas pelo desejo e pelo outro mundo excitante de Quentin, ela está disposta a pagar. Sem dizer muito, Chris deixa que o espectador compreenda até que ponto a mulher pode ir pelo garoto: ri de tal situação absurda.

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No filme de Jacquot, ele é a oposição perfeita em relação ao espectador, a se revoltar com a cegueira dela. Do amor inexplicável, o cineasta retira estranhas emoções. O filme parece vazio, mas passa longe disso.

Ao movimento inesperado de Quentin (ou esperado, depois de tantas escapadas) restam as lágrimas de Dominique, frias, misteriosas, distantes mas suficientes para definir seu amor pelo esguio demônio em cena. “Mulheres maduras não choram”, observa ele, em mais um dos golpes verbais para confrontá-la.

Para Jacquot, o desejo desmascara as personagens – por extensão, as pessoas dessa França forjada por diferentes classes e ambientes, mas na qual o garoto de programa terá trânsito livre entre mulheres ricas e aparentemente cegas. Um advogado explica: “O dinheiro é o que nos destrói”. Muitos querem comprar.

(L’école de la chair, Benoît Jacquot, 1998)

Nota: ★★★★☆

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