Viva a Liberdade, de Roberto Andò

A política depende e sobrevive da imagem. Quando o político escolhido para assumir o posto sai de cena, homens de bastidores logo precisam ressuscitar a mesma imagem – não exatamente o mesmo homem – e reconduzi-la ao palanque, ao público.

É disso que trata Viva a Liberdade, de Roberto Andò. Nessa pequena farsa política, irmãos gêmeos talvez sejam o mesmo homem – espécie de “médico e monstro” sem doses de tragédia. O diretor sempre se vale da brincadeira.

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O que inclui dar ao novo homem – o novo político – a possibilidade de dizer o que pensa. Aos repórteres, fala da imprensa. Aos políticos, de política. Ou mesmo sobre o medo quando fala dos eleitores. Para ele, o povo italiano precisa perder o medo.

É provável que suas falas sobre política ultrapassem as fronteiras da terra de Berlusconi. O novo político com direito à palavra mescla a loucura à sabedoria. Não por acaso, conquista o coração dos eleitores, que esperam de alguém apenas a verdade, ainda assim alguém que use o palanque com paixão, que inspire e até faça rir.

O novo político – irmão louco, “monstro” ou o lado livre do mesmo homem antes preso ao discurso e aos modos esperados – consegue o sucesso. Não demora nada para seu nome surgir como líder nas pesquisas, para ganhar capas de jornal.

Ambos os irmãos são interpretados por Toni Servillo. O primeiro segue o padrão: tem os cabelos tingidos, fala de forma ponderada, tem em seu olhar melancólico uma história de altos e baixos – à qual não é difícil ter acesso, devido à previsibilidade.

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Em suma, Enrico Oliveri é como seres de sua espécie. O outro difere: é Giovanni Ernani, que fala como se cantasse e sempre vai pelo caminho aparentemente mais difícil. Espontâneo, não deixa ver sua história. Torna-se Enrico quando este desaparece: diverte-se com a possibilidade de ser o outro, como já ocorreu no passado.

As personagens sob os traços do mesmo ator nunca aparecem juntas. Com seu partido de oposição em crise, Enrico decide desaparecer – ou, como cabe aqui, aparecer com outro formato, como o irmão gêmeo louco e de bem com a vida.

A crise exige esse novo homem sem história, moldado à espontaneidade (ou loucura), o remédio à população com medo e que só pode esperar o impossível. Para dar o que todos desejam, Enrico precisa sair de cena. Refugia-se na França, na casa de uma velha conhecida interpretada por Valeria Bruni Tedeschi.

Em reclusão, tem contato com a arte. De repente, envolve-se com pessoas do cinema. Autor da obra que dá origem ao filme e de seu roteiro, Andò coloca a política e o cinema em lados diferentes e sob a estranha sensação de proximidade.

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Nos dois casos, prevalece a imagem e suas contradições: para a política, a ideia de que a realidade pode ser falsa; para o cinema, o exato oposto. Em caminhos contrários também seguem os irmãos. À crise política, melhor o palhaço falador que o homem ponderado, melhor as palavras soltas, a dança e o canto – e com isso algum confronto.

As palavras do palhaço nem por isso perdem sentido. Não é difícil entender por que faz tanto sucesso. Talvez o público (eleitor) prefira esse homem que não veste uma personagem, mas que é ela própria – um louco – a todo o momento.

Nota: ★★★☆☆

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