Juiz Priest, de John Ford

Mais que pregar a justiça, o juiz Priest (Will Rogers) reivindica a posição do homem simples. Homens como ele são honestos, não precisam se explicar. O diretor John Ford, em Juiz Priest, tem esse material pronto, moldado à naturalidade.

Priest, não é exagero dizer, resume o cinema clássico americano. É simples e correto, o americano desejado, a rivalizar com o Lincoln de Henry Fonda em A Mocidade de Lincoln, do mesmo Ford, ou com George Bailey (James Stewart), o protagonista de A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra.

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Ao mesmo tempo em que parece desleixado, com pouca atenção ao seu tribunal, Priest tem o que se espera para encher a tela: sua simplicidade e jeito caipira fazem mais por ele do que a atenção e o poder dos super-heróis de capa e espada.

Personagem cômica, em seu caso, perdida nesses Estados Unidos de Ford, que ora ou outra tocam a realidade – e ora ou outra o fazem de forma estranha, até irônica, como no papel dos negros mostrado aqui, nessa história passada em Kentucky.

Situa-se após a guerra civil, momento em que os velhos homens não hesitam em lembrar os velhos conflitos, os gestos de lealdade. Priest lutou na guerra, como mostra sua feliz lembrança ao lado da mulher. Mais tarde, perdeu a companheira e os filhos.

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O filme tem início com o velho homem lendo jornal na cadeira de juiz, durante um julgamento. O jornal parece mais interessante que o discurso de seu oponente, cujas palavras voltam-se como facas ao homem negro acusado de roubar galinhas.

O herói bondoso sabe da impossibilidade do negro ter cometido tal ato. Ou sabe que, caso seja culpado, ainda assim merece escapar da cadeia. Não há aqui a aplicação crua da justiça, com suas leis e papeis, mas o puro bom senso. O juiz não apenas absolve o homem negro: faz dele seu criado, e se torna bom patrão e amigo de pesca.

A guerra é pano de fundo. A relação com os negros também – ou talvez menos que isso. No retrato de Ford sobre seu verdadeiro país, tais detalhes encontram-se vivos, e são mais do que toques sobre a tela, mais do que expressões aparentemente normais.

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De tão irônicas, não passam despercebidas. É o caso do momento em que os negros estão do lado de fora do tribunal, ao fim, em festa para animar os outros, enquanto a justiça é levada à frente pelos homens brancos. O tribunal permite a bagunça, as ruas também: a separação quase não aparece nessa festa da “democracia”.

Ao centro, tem-se a história do herói aos cantos, fazendo de tudo para ajudar o bom rapaz jovem (novo advogado) em sua relação com a menina que ama (que não é aceita pela mãe do mesmo rapaz) e em seu primeiro trabalho (a defesa de um velho herói de guerra, justamente o pai da mesma menina).

Todas as personagens estão próximas a Priest, o único capaz de fazer justiça. Enquanto se mostra cansado, surpreende na atitude seguinte: com calma, jeito inocente, ele articula mudanças, como um anjo desajeitado e verdadeiro.

Nota: ★★★★☆

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