Baleias de Agosto, de Lindsay Anderson

A senhora Libby Strong não entende por que a irmã deseja uma janela maior. E isso não tem a ver com sua cegueira. Ela não entende, ao que parece, por que algumas pessoas que aparentemente viveram tudo ainda insistem em viver mais.

Corre ao fundo esse questionamento. Perto do fim de Baleias de Agosto, o velho visitante interpretado por Vincent Price dirá algo esclarecedor: “Viver nunca é demais”. É algo verdadeiro para a senhora Sarah Webber, que, ao contrário da irmã Libby, não se deixa tomar pelo amargor, ainda disposta a celebrar a vida.

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Com tocante direção de Lindsay Anderson, o filme aborda a relação dessas irmãs diferentes, velhas, na antiga casa da família, à beira mar. Por ali, sabem as mulheres, as baleias aparecem sempre em agosto, marcam a passagem do tempo.

O filme é sobre viver – ainda que pareça amplo demais. Mas no terreno em que o mínimo é máximo, em que cada ruga deixa seu sinal, a ideia de viver faz-se importante: Libby e Sarah são velhas senhoras solitárias que contam com pouco mais que si próprias. Buscam o apoio da outra enquanto se voltam à paisagem.

Estão à espera das baleias, sob o ranger da velha casa, com as lembranças da amarga Libby e as fotos da ainda amorosa e confiante Sarah. São diferentes, inconstantes, em contraponto a tudo o que é imóvel. Nesse caso, a chegada das baleias só pode confirmar a crença geral: o ciclo da vida se renova e se repete.

A vida passa. É a certeza dessas mulheres que caminham a lodos opostos para terminarem juntas, abraçadas, ainda à espera das tais baleias – justamente o que faziam quando jovens, quando ainda viviam na mesma casa.

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O ciclo cumpre-se: mais velhas, elas continuam no mesmo lugar. O que está ao meio pertence às lembranças, às fotos, à felicidade da conversa entre amigos e parentes, ao passado que o espectador desconhece: o que está além do esqueleto da velha casa.

Libby é interpretada por Bette Davis, Sarah por Lillian Gish. São duas das maiores estrelas do cinema clássico, reunidas em um drama de contornos simples. A primeira é cega e amarga, sempre negando os pequenos prazeres da vida presentes em Sarah. A certa altura, conversam sobre uma possível separação.

Quando recebem o senhor Maranov (Price) para um jantar, Sarah encanta-se com suas conversas e velhas histórias. O homem acabou de perdeu sua mulher. Libby, ao contrário, diz que ele não deve encontrar refúgio na casa de ambas.

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Desencantado, ele vai embora. Lembra, antes, que passou boa parte da vida visitando amigos. Continua a fazer o mesmo. As personagens obedecem a seus ciclos, à inevitável continuidade: no fundo, não há segredo algum, as coisas seguem como são.

O filme dispensa a morte e a saída ao drama fácil. Sua grandeza está na relação das mulheres, no máximo entre o mínimo, na maneira como Libby entenderá a importância da nova janela: ver a vida de forma diferente é uma necessidade, uma reinvenção.

Nota: ★★★☆☆

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