Utopia e desilusão no cinema de Carlos Diegues

O grupo de escravos tenta resistir e ser livre. A mulher e seus amigos “chegados de longe” andam em círculos, sonham, encontram a pior parte da cidade grande. Com esses pontos de partida, Ganga Zumba e A Grande Cidade, ambos de Carlos Diegues, refletem sentimentos anteriores e posteriores ao Golpe de 64 no Brasil.

No primeiro caso, mostra a resistência e a fuga de um grupo de escravos – entre eles a personagem-título – para chegar ao Quilombo dos Palmares, onde poderão viver livres. O ambiente nunca mostrado, uma representação da utopia da obra.

ganga zumba

O que a move é o desejo de liberdade dos oprimidos em contraponto à selvageria dos opressores brancos e seus capitães do mato. Ganga Zumba (Antônio Pitanga) é o jovem escravo que pode se tornar líder de Palmares. Com outros, ele consegue fugir. Por dias, é caçado, quase morre e luta desesperadamente.

Então no início da carreira, Diegues filma seguindo as características do cinema novo da época: câmera na mão, linguagem raivosa, ligação de um tema antigo (a escravidão) a uma situação do presente (o desejo de fazer a revolução e ter assim a almejada liberdade). Além disso, confere à obra contornos épicos, típicos de uma aventura de toques fantásticos – como Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

E, como Glauber, Diegues levará suas personagens à desilusão em A Grande Cidade – seu equivalente a Terra em Transe. Se Ganga Zumba reproduz a busca pelo impossível, a idealização da sociedade perfeita (o quilombo nunca encontrado), Deus e o Diabo promete a transformação do sertão em mar com a corrida do homem ao infinito.

O fim do confronto entre brancos e escravos não oferece a porta de entrada ao paraíso. Ao contrário, a câmera prefere se afastar: de longe, o espectador vê o movimento dos sobreviventes, em uma caminhada incerta. O filme termina.

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Em A Grande Cidade, tem-se o oposto à utopia: a terra sonhada pelos nordestinos não é mais que um emaranhado de casas, prédios, gente que não para de trabalhar, miseráveis caídos pelos cantos, música, massa, carnaval, bares, doses de alegria.

Em suma, o choque de realidade expresso à perfeição quando o vagueiro matador e procurado pela polícia abre a porta de sua pequena casa e mostra a cidade para sua amada, que veio de longe para viver com ele no suposto paraíso.

Enquanto ele explode em fúria, ela ora. Enquanto ele tenta sobreviver à base do crime, pois só pode estar à margem, ela aceita viver como criada em um escritório. Ao mesmo tempo, Diegues traz outras personagens: o negro malandro e o operário conformista.

O primeiro tem peso. Ao mesmo tempo, é secundário. É o mesmo Antônio Pitanga de Ganga Zumba – de herói e líder, rapaz bravo e inquieto, ao cínico de camiseta branca colada ao corpo, com sapatinho branco, de fala rápida, carregado de malícia.

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Diegues refere-se a ele como “pícaro moderno”, por transitar entre todos e ainda assim não ser o mais importante – mas a quem se confere o resumo dessa nação de misturas. Mais tarde, ele deixa a cena com alegria: ri em meio à podridão da grande cidade.

É também “uma reminiscência do Macunaíma que eu havia pensado em filmar”, diz o diretor. Nesse sentido, Calunga (Pitanga) é o pequeno notável brasileiro. Comum mas diferente, que tudo sabe, capaz de unir personagens, de dar dicas, mas sem revelar detalhes. Transita entre a plateia e o palco, entre a borda e o meio.

Ele ajuda Luzia (Anecy Rocha), que acabou de chegar do Nordeste com sua mala em mãos, cabelo desarrumado, sem informações e ingênua. Não seria diferente. A ela, ele oferece o choque, a realidade, mas nem sempre com palavras claras.

Abre portões de um paraíso que não é dele, seduz com dinheiro do asfalto e compra morangos com as notas sujas. A moça sabe o suficiente sobre Calunga. Todos reconhecem esse típico brasileiro esperto e nem todos lhe dão crédito.

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A moça precisa encontrar seu par, Jasão (Leonardo Villar), também vindo do nordeste, transformado em assassino. Mata políticos, deixa ver suas botas antes de seu rosto. A grande cidade, ele sabe, é palco para extremos: seu jeito de viver a prisão é negando a prisão dos outros, como a do pedreiro (Joel Barcellos).

Esses homens estão em pontas diferentes. A dama está entre eles. Calunga passa por todos, primeiro com malícia, depois com desespero – e tudo se resume a essa cidade que não dorme, à custa da miséria, com sua festa de carnaval, com seus intelectuais fascinados pelo pobre e pelo marginal, além de militares à beira mar.

Com Ganga Zumba, Diegues apresenta a vitória dos oprimidos. Seu encerramento deixa esperança. Depois, com A Grande Cidade, leva à vitória dos opressores, à morte do vaqueiro e de sua amada, à dança do típico brasileiro e sua alegria.

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