Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca

A guerra pertence aos equilibrados. A harmonia é dos loucos. É assim em Esse Mundo é dos Loucos, comédia de Philippe de Broca sobre os últimos dias de ocupação alemã em uma pequena cidade francesa, local em que se revela o absurdo da guerra.

Para o diretor, trata-se do teatro da vida, da verdade, a forma de driblar o mal: os loucos saem do hospício, esquecidos, e ocupam as ruas, brincam com o falso. São atores, ao fim, mas atores revelados: são seres verdadeiros porque falsos.

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Os homens da guerra, por sua vez, revelam o oposto: precisam parecer equilibrados para fazer o conflito, para matar inimigos. Fingem sanidade. No fundo, são falsos, presos às fardas, ao enganoso cavalheirismo das fileiras, da disciplina.

Na obra de Philippe de Broca, um destacamento de escoceses descobre que os alemães plantaram bombas nessa pequena cidade, na Primeira Guerra Mundial. O artefato bélico não poderia estar em local mais simbólico: sob o palco da praça central.

Por ali, ao redor, os loucos vestem seus figurinos, brincam, são livres. Mais tarde, os soldados retornam, deslumbram-se e até são confrontados por essa liberdade: os homens comportados não sabem lidar com os verdadeiros loucos.

A encenação do “teatro do mundo”, como diz a personagem de Jean-Claude Brialy, começa com o envio do soldado Charles Plumpick à pequena cidade. Os escoceses descobrem os planos dos alemães e pretendem minar seus interesses.

esse mundo é dos loucos

Interpretado por Alan Bates, Plumpick precisa encontrar as bombas. Ele é descoberto ainda cedo, foge e se esconde no hospício. Chamado de “rei de copas”, o rei dos loucos, termina louvado e acaba ajudando os internos a ganhar liberdade.

Os loucos saem às ruas, assumem os espaços que eram da população fugida, tomam suas roupas, suas funções, suas carruagens. Tem início esse belo teatro, ou essa vida: a encenação do absurdo em tempos absurdos, a exaltação da verdade.

Pois Philippe de Broca questiona o que, afinal, define a razão e confere a alguns o poder sobre outros. Para os loucos, o rei é aquele que toma a personagem sem querer, o estranho que surge na cidade apenas para viver outro papel.

Com o fim da guerra, ou com o fim do teatro dos verdadeiros loucos (a morte dos dois batalhões), melhor é retornar ao hospício. O mundo – banhado pelo sangue dos soldados – torna-se sério demais, a encenação tem novos contornos. Perde a graça.

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As mulheres exageram na maquiagem e nos figurinos. Desfilam com seus companheiros, tornam-se prostitutas. A certa altura, uma delas sugere que um dos loucos faça filhos para ter seu próprio batalhão. “De um lado, as prostitutas. De outro, os coronéis. Tem razão, a vida é simples”, sugere o futuro pai.

Nesse tom, os desequilibrados tornam-se protagonistas do espetáculo, à frente do grande palco: em sua aparente loucura, injetam doses de lucidez.

Nota: ★★★★☆

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